Até bem pouco tempo o fotógrafo Ricardo Almeida tinha como um diferencial na profissão o olho clínico para clicar interiores. Revistas e livros de decoração trazem imagens registradas por ele, que há anos vem cuidando desse escaninho fotográfico – a combinação da luz e ângulos para melhor expor a elegância dos ambientes. Porém, bastou o convite de Beto Amorim para Ricardo pilotar as panelas num evento do seu restaurante ‘‘Beto Batata’’, para que a feijoada feita por ele ganhasse um ibope inesperado.
Modesto, o fotógrafo parece surpreso quando fala da reações das pessoas: ‘‘Quem comeu disse que gostou muito’’. O sucesso da empreitada levou a um segundo almoço no mesmo endereço, e o buxixo aumentou. Logo depois de inaugurado o novo espaço, ‘‘Era Só O Que Faltava’’, para lá foi Almeida mais uma vez levando feijão preto e os ingredientes indefectíveis: linguiça calabresa, paio, lombo e costela defumados, etc. Os donos da casa garantem que por ali passaram 340 comensais. Todos saíram satisfeitos.
Uma das razões do sucesso estaria na leveza da feijoada. ‘‘Não uso pele, orelha, pé, rabo – nada que deixe aquela sensação de gordura no céu da boca’’, dispara. Ele conta que aprendeu a fazer o prato com a ex-sogra, que era uma especialista no assunto. ‘‘Ela me ensinou, um dia eu fiz e ficou melhor que a feijoada dela’’, diverte-se.
Como usa carnes salgadas, coloca-as de molho, troca a água algumas vezes, mas aí é uma ciência muito pessoal. Não só o sal, mas também o gosto da defumação tem que ficar no ponto ideal. Depois desta fase, que começa no dia anterior, Ricardo cozinha os ingredientes em panelas separadas. Um detalhe: a água do cozimento não é jogada fora. Ela é utilizada no tempero.
Catarinense de Lages, o moço do signo de Escorpião chegou a Curitiba sem saber fritar ovo. A necessidade levou-o ao fogão, e daí para o imenso prazer da cozinha foi um pulo. Mas só quando tem uma porção de amigos para dividir a comilança. Poucas vezes prepara algo mais elaborado se estiver sozinho.
Quando está acompanhado, aí sim, capricha num macarrão marinado – coloca camarão, lula, marisco, mexilhão. ‘‘São elementos afrodisíacos’’, ensina. A entrada pede endívia e manga, com semente de papoula; e a sobremesa – ‘‘simples de fazer’’ – é panetone na chapa com grapa, acompanhado de gemada e sorvete de creme, decorado com folha de hortelã. ‘‘Sou um cara romântico; prezo muito os detalhes’’, revela.
Exceto em noites de champanhe e luar, Almeida não sabe ser contido. ‘‘Se vou fazer refeição para três ou quatro amigos, acabo cozinhando para 20, 25. Não consigo fazer pouca comida’’. Generoso, estende para a mesa sua personalidade. ‘‘A fotografia e a comida são meus prazeres da vida’’, segreda.
Há um porém nessa frase: fotografar é ainda mais especial. Ele jamais assumiria as panelas e teria as imagens como hobby, ‘‘Fotografar me realiza, seja o que for; costumo dizer que não trabalho, me divirto’’. Fã dos trabalhos em preto e branco, considera a vida nessas duas tonalidades. ‘‘Tem momentos em que as cores são muito chatas’’, afirma. ‘‘Elas têm a capacidade de deixar tudo igual’’.
Homem profundamente feliz, Ricardo Almeida conta que quando adolescente assistiu a muito filme em preto e branco, e geralmente essas fitas são românticas. Assim como ele. Seu olhar desvenda beleza em tudo, há sempre algo de bom até para transformar a feiura aparente, mas reconhece: ‘‘Este é um padrão muito pessoal, eu sou desse jeito’’.
Daí que a vida para ele é realmente prazerosa. Quer seja na alquimia das químicas num laboratório fotográfico, quer seja na transformação dos alimentos que liberam sabores e cheiros até então aprisionados. Por falar nisso, hoje é dia do moço ir às compras para a feijoada de sábado – vai comemorar o aniversário (transcorrido dia 13), reunindo uma porção de amigos. ‘‘Podia fazer outro prato, mas feijoada é descontraída, democrática. Ela se parece com um grande abraço’’.

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