Neste sábado e domingo, o aclamado sound designer Luiz Adelmo estará em Londrina para ministrar a ''Oficina de Som para o Cinema'', promovida pela Kinoarte (Instituto de Cinema e Vídeo de Londrina) e que parte integrante das atividades paralelas na Mostra Londrina de Cinema, patrocinada pelo Promic.
Com uma carreira extensa no cinema e na televisão, Adelmo é doutor em Cinema pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), é autor do livro ''Som-Imagem no Cinema'' (Ed. Perspectiva) e já participou de produções de destaque no cinema nacional como ''O Homem que Copiava'' (de Jorge Furtado, 2003) e ''Jean Charles'' (de Henrique Goldman, 2009). Atualmente, Luiz Adelmo acabou de concluir a mixagem de ''O Palhaço'', dirigido por Selton Mello, e é o responsável pela edição sonora da série televisiva ''9mm : São Paulo'', transmitida pelo canal pago FOX.
O objetivo da Oficina que será ministrada neste fim de semana é a apresentação de todas as etapas relacionadas ao desenho de som para um filme, incluindo captacão de som direto, edição e mixagem que envolvem a arte cinematográfica.
Em entrevista exclusiva para a FOLHA, Luiz Adelmo fala sobre sua carreira, suas expectativas para o futuro do som no cinema brasileiro e da importância da influência sonora do impressionismo alemão da década de 20.
O senhor já trabalha na indústria cinematográfica brasileira há muitos anos. É possível analisar a evolução do cinema brasileiro também do ponto de vista sonográfico? Hoje os filmes nacionais apresentam uma preocupação maior com o design e a edição do som?
Com certeza houve uma evolução, basta pensarmos que até os anos 1980 a finalização de som de um filme (conhecida por edição de som) era feita na maior parte das vezes pelo próprio montador do filme e aos poucos passamos a ter editores de som e mesmo ''sound designers'' (ou desenhistas de som, como preferir). A referência sonora dos diretores dos filmes também evoluiu, na medida em que passamos a assistir filmes em melhores condições de reprodução. Juntando roteiros mais elaborados, que abrem espaço para o uso do som como parte essencial da narrativa, com pessoas dedicadas a pensar o som dentro do filme, otimizando sua reprodução em função de tecnologias existentes (que criam uma ambientação em 5.1, por exemplo), naturalmente novas propostas surgem e os resultados são claros. As ferramentas digitais contribuem bastante para essa evolução, de todo modo a percepção de que o som ajuda a contar uma história é fundamental. E isso de fato tem acontecido nos filmes brasileiros nos últimos tempos. Hoje não se tem mais tanto a obsessão de que som de filme brasileiro significa apenas som fora de sincronismo ou incompreensível; existe bastante criatividade nas bandas sonoras da maioria dos filmes.
Em seu livro ''Som-Imagem no Cinema'', o senhor discute a influência sonora do cinema expressionista alemão na década de 20. Os clássicos tem muito o que ensinar?
O período do chamado ''Cinema Expressionista Alemão'', embora não dispusesse do som como elemento narrativo como conhecemos a partir dos anos 1930, permite revelar como o som poderia ser aproveitado dentro de um filme e, em contrapartida, revelava formas de articulação de imagem que procuravam suprir a ausência real do som. O que o livro propõe-se a mostrar é como essa estruturação se dá, não somente no cinema alemão daquela época (compensando essa ausência também por um trabalho visual intenso) mas sobretudo no cinema enquanto arte. O som mostra-se parte necessária do aparato cinema a partir do momento em que o cinema baseia-se na realidade, mesmo que seja para criar diferentes realidades. Sem a presença do som, o cinema articulou-se para fazer referência ao som; com o advento do som, descobriu que a articulação da imagem seria diferente. A música, como elemento sonoro mais notório (junto com a fala), modifica a leitura que temos da imagem em si própria, assim como o silêncio também mostra seu poder ao ser associado a uma imagem. Nesse sentido, o efeito da música é crucial, da mesma forma que se pode pensar o mesmo para uma palavra ou um efeito sonoro, dependendo da orquestração desses elementos na banda sonora de um filme. Imagine então quantas possibilidades surgem da articulação entre som e imagem, de tempo e espaço. Os clássicos ensinam muito nesse sentido. E mesmo um filme como ''M, o Vampiro de Dusseldorf'', de 1931, continua ainda nos dias de hoje sendo uma das principais referências quando se fala de uso do som no cinema.
Entre os filmes que participou, quais deles o senhor considera como os mais desafiantes na questão do design e da edição sonora?
De bate-pronto, lembraria de dois filmes de longa-metragem: ''O Primeiro Dia'', de Walter Salles e Daniela Thomas, de 1999, e ''O mundo em 2 Voltas'', de David Schurmann. Foram dois filmes que permitiram um trabalho marcante de edição de som, que se estruturam sobremaneira na concepção sonora. No momento, acabo de concluir ''O Palhaço'', de Selton Mello, que também foi das experiências mais prazerosas de se fazer, com bastante espaço para o som. Com certeza teria mais filmes nessa lista, para se chegar a um trabalho marcante sonoramente depende muito do diretor. Citaria alguns diretores que guardo ótimas lembranças por essa atenção: Marcos Jorge, Jorge Furtado, Cris d'Amato, Monica Schmiedt, Michael Ruman, além dos já citados acima. E, por fim, os filmes de curta-metragem, deles guardo ótimas experiências, pois abrem espaço para muita experimentação.
O que as pessoas podem esperar aprender na Oficina deste fim de semana?
Como tenho a experiência de ter passado por todas as etapas que envolvem o som dentro de um filme, procuro passar pouco das características de cada etapa, seus problemas, suas potencialidades. Fazer um filme é um trabalho coletivo, então é importante entender como esse processo se desenvolve, daí buscando tirar o melhor do som de um filme. Quem fizer a Oficina, vai se deparar com exemplos de filmes que sabem utilizar o som de forma positiva, discutindo como se chega a esses resultados e tirando daí ferramentas que permitam trabalhar no dia-a-dia da produção. E também haverá um panorama sobre tecnologias, desde a captação até sistemas de reprodução.
Serviço - ''Oficina de Som para o Cinema'', com Luiz Adelmo
Quando - dias 18 e 19, das 9h às 18h
Onde - Vila Cultural Kinoarte (Rua Paraíba, 331)
Quanto - As vagas são limitadas e inscrições custam R$ 100. Mais informações através do telefone 3026-6932

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