Fé na religião
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de novembro de 2012
Geraldo Bessa<BR>TV Press 
Com intensidades diferentes, crenças religiosas são presenças cativas nas novelas. A razão é simples: a religiosidade, e, sobretudo, o sincretismo do povo brasileiro, é mais uma forma da teledramaturgia se aproximar de um público carregado de fé. "Meu ponto de partida foram os guerreiros do cotidiano. Seria impossível tocar neste tema sem falar de São Jorge e na fé de seus seguidores. Mas não quis me limitar a uma religião", jura Glória Perez, sobre suas inspirações para criar a trama de "Salve Jorge".
Embora deixe claro que, em sua história, o mito do santo guerreiro é mais importante do que as religiões que a ele aludem o catolicismo e a umbanda, onde São Jorge é associado a Ogum , o texto da atual novela das nove aborda, em muitas de suas cenas, orações, pedidos e promessas ao santo que, inclusive, dá título ao folhetim.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, coletados entre 2000 e 2010, ainda que o número de evangélicos tenha crescido vertiginosamente no Brasil, o país ainda é composto de 64,6% de seguidores da igreja católica apostólica romana. Isso justifica ao longo da história da telenovela brasileira a existência de inúmeros padres fictícios e tramas que abordam o catolicismo sob diferentes olhares.
Desde a simplicidade da pioneira "Padre Tião", exibida pela Globo em 1965, passando pelo tom crítico direcionado às hipocrisias da igreja com que Dias Gomes escreveu trabalhos como "Assim na Terra Como no Céu", de 1970, e "O Bem Amado", de 1985. E por fim, o viés popular de tramas mais recentes como "A Padroeira", de 2006, assinada por Walcyr Carrasco.
"Escrevo sem julgamentos e sob a ótica da fé. Gosto do contraponto entre a religião e o que é posto pela igreja como pecado. Seja o padre que larga a batina em 'Morde & Assopra', ou a beata que defende a moral, mas que teve um passado pecaminoso, como a Dorotéia do remake de 'Gabriela'", ressalta Walcyr, que além do catolicismo, frequentemente, flerta com tramas espíritas.
A doutrina kardecista e temas ligados à parapsicologia têm destaque na obra da falecida Ivani Ribeiro, autora de sucessos como "A Viagem", de 1975, "O Profeta", de 1977, exibidos pela Tupi ambos ganharam remake na Globo em 1994 e 2006, respectivamente , e "O Sexo dos Anjos", de 1989, da Globo.
Apontada como sucessora deste filão espírita, Elizabeth Jhin é uma das mais requisitadas autoras do atual horário das seis global. Com histórias românticas sobre vidas passadas, ela obteve grande repercussão com "Escrito Nas Estrelas", de 2009, mas amargou fracassos de audiência em "Eterna Magia" na qual também abordou a religião wicca e a recente "Amor Eterno Amor", exibida até agosto deste ano. "Desde de que me tornei autora principal, tenho a imensa vontade de falar sobre espiritismo, mas me preocupo também em contar uma boa história. Assim, a novela não fica limitada apenas a doutrinas", analisa Jhin.
Ao contrário do espiritismo, que chega aos mais diversos lares sem causar transtornos, sempre que rituais e entidades da umbanda aparecem em novelas a opinião do público divide-se entre simpatizantes e detratores. "Nenhuma religião é melhor ou pior. Acho inadmissível o preconceito com a umbanda, uma crença que exala brasilidade. Em 'Duas Caras', ousei colocar no mesmo núcleo um terreiro e uma igreja evangélica e fui massacrado. Mexer com religião é sempre perigoso", enfatiza Aguinaldo Silva, autor de "Duas Caras", que carrega em seus folhetins a herança do modo como Jorge Amado abordava a crença, influência dos clássicos do escritor baiano que Aguinaldo adaptou para a tevê, como "Tendas dos Milagres", de 1985, e "Porto dos Milagres", de 2001.
Seguindo a ideologia de seus dirigentes e em tom de superprodução, a Record tem investido alto em minisséries baseadas em histórias da Bíblia. Desde os bons índices de audiência conquistados por "A História de Ester", em 2010, a cada ano, uma nova produção neste segmento é formatada.
Em 2011, a emissora apostou na trama de "Sansão & Dalila", adaptada por Gustavo Reiz, este ano exibiu "Rei Davi", e já prepara para 2013 a minissérie "José do Egito", ambas assinadas por Vivian de Oliveira. "São histórias complexas de serem adaptadas para um produto de entretenimento. É preciso ter critério para escolher o melhor. Davi e José são extremamente humanos, com erros e acertos, esse é o eixo principal das tramas", conta Vivian.


