Desde a virada do século, Lapa, cidade localizada a 60 quilômetros de Curitiba, é famosa por ter resistido por 26 dias ao cerco de tropas que subiam do Sul para tentar derrubar o governo no Rio, em 1894. Também é conhecida por seu belo centro histórico, tombado em 1989 pelo conselho estadual de patrimônio do Paraná. Além disso, é o local ideal para quem quer saber um pouco sobre a vida e a culinária dos antigos tropeiros.
Razões de sobra para transformá-la num município turístico, não? No entanto, a principal atração para os visitantes é mais mística e religiosa do que histórica. A cada mês, cerca de 2.400 pessoas assinam o livro de visitas da Casa da Memória. É mais da metade dos pelo menos 4 mil visitantes da cidade, que passam direto pelos casarões antigos e seguem para a chamada Gruta do Monge, distante cerca de 3 quilômetros do centro.
Localizada na Serra do Monge, ela foi a casa, entre 1847 e 1855, de João Maria de Agostinis, batizado por muita gente no Paraná de São João Maria. Mesmo não sendo reconhecido pela Igreja Católica, sua história conseguiu atravessar o século e a lenda de que curava, concedia graças e fazia milagres continua até hoje mexendo com a fé popular e atraindo caravanas de romeiros.
Uma parte deles vai até a gruta para fazer promessas e pedir ajuda. Outra, para agradecer os desejos realizados ou simplesmente beber um gole do olho d’água de São João Maria. A ‘‘fonte que nunca seca’’ é uma entre várias na região que levam o nome do monge. Algumas, como a do município de Ponta Grossa, não escaparam da poluição e as autoridades vivem tentando convencer a população a não prová-la.
Também sobram, nas redondezas da Lapa, lugares e empresas com o nome do monge. Ele também é lembrado em aulas e livros escolares. ‘‘Aqui no Paraná quase todo mundo já ouviu falar dele e muitas pessoas afirmam conhecer alguém que já foi curado de algum mal pelo monge’’, explica a guia turística da cidade, Rosângela Beraldi Xavier Pinto.
Uma das formações areníticas mais antigas do Paraná, a Gruta do Monge tem como principal destaque o paredão de pedra coberto de fotos, crucifixos, cartas e atestados de saúde. Também não faltam réplicas de braços, pernas e cabeças de madeira ou gesso, muletas, dezenas de imagens e placas de metal. É diante desse paredão que os romeiros se apertam, principalmente nas manhãs de domingo, para acender velas, ajoelhar e fazer suas preces.
‘‘Gosto de vir aqui porque quando peço uma graça sempre alcanço’’, afirma a dona de casa Leonora Opata, de 47 anos. Moradora de Campo Tenente (PR), ela conta que o maior presente que recebeu foi a cura do filho, que, criança, tinha problemas para falar. ‘‘Prometi que ficaria dois anos sem cortar o cabelo dele’’, lembra. ‘‘Depois desse tempo, trouxe todos os fios para deixar na gruta e, três ou quatro anos depois, meu filho estava curado.’’
Outras pessoas preferem agradecer a ‘‘São’’ João Maria por meio de sacrifícios. Foi o caso da também dona de casa Luciana Fagundes, de 24 anos, que subiu 148 degraus de joelhos para pagar uma promessa. ‘‘Meu filho Gustavo, de três anos, tinha problema no coração e o médico falou que ele precisava passar por uma cirurgia’’, diz. ‘‘Depois de eu fazer a promessa, ele ficou bom e não teve mais de ser operado. Só pode ter sido um milagre.’’

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