Fé
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de março de 2009
Paz Aldunate 
Outro dia fiquei extremamente impressionada e comovida com a história de um garotinho que está participando há vários meses de um programa de calouros infantil e se distingue por ter sempre um sorriso no rosto, estar em todo momento de bom humor e brincar com todo mundo. Numa entrevista com o apresentador, acabou revelando o drama que a sua família estava vivendo por causa do pai, vítima de uma profunda depressão por ter perdido o emprego e não conseguir arranjar um outro para sustentar dignamente a família. Tudo parecia perdido e sem saída até que alguém sugeriu que ele começasse a acompanhar a carreira do filho (em grande parte simplesmente por não ter mais nada para fazer e precisar se ocupar em alguma coisa) viajando com ele e ajudando-o a ensaiar e a se preparar para cada apresentação. O homem, apesar de desenganado e sem forças, aceitou o desafio e logo após as primeiras semanas acompanhando o garotinho começou a mostrar alguma melhora e até já tinha diminuído as doses de antidepressivos, com o que a situação espiritual da família tornou-se mais leve e esperançosa...
Ao escutar o menino contar a sua história, muito emocionado, e ver algumas tomadas que a câmera fez do pai, sentado silenciosamente nas coxias, cabisbaixo e envergonhado, magro e apático, fiquei simplesmente espantada: uma criança tão nova tendo que carregar nos ombros uma situação tão extrema e ainda conseguindo escondê-la e seguir adiante com tamanha força e otimismo!...
Olhando para seu rostinho moreno e sorridente, apesar das lágrimas nos olhos escuros, me perguntei de repente: Como é que somos capazes de espantar até os nossos piores males e continuar vivendo inteiros e coerentes? É algo instintivo, superior à dor, à desgraça, ao empecilho, à morte? Está implícito em nosso inconsciente, em nossa humanidade, em nossa luta pela sobrevivência? O que é esta força que ilumina as nossas tragédias e é capaz até de transformá-las em vitórias, em lições, em trampolins para novos patamares, em portas para dias melhores?... É a canção? É o riso? É o otimismo? É o trabalho, a coragem, a raiva, o desafio?...
Bom, talvez seja tudo isso reunido numa só palavra: fé.
PAZ ALDUNATE é professora de teatro, dramaturga e escritora;
pazaldunatepalavras.blogspot.com


