FAZER PÃO. POR QUE NÃO?
Foi preciso esperar quase uma hora atrás das grades para que a última fornada de pão estivesse pronta e os jornalistas convidados para degustar com olhos e paladar o produto, pudessem ter acesso a ele. Não se trata de nenhuma iguaria feita com ingredientes raros, mas quem as prepara precisa de cuidado e segurança peculiares. O pão, de polvilho e queijo, foi preparado pelos detentos da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL), durante a oficina de panificação ministrada pelo chef paulista Antônio Mashio.
A oficina faz parte da programação do Festival Internacional de Londrina (Filo) e encerra amanhã. Dez, dos 370 presos da PEL, participam do evento. Eles foram selecionados pelo grau de periculosidade, comportamento e experiência. Já fiz várias oficinas para aprender a fazer pão. Mas essa é diferente, criativa. O professor trata a gente de igual para igual, relata o presidiário Ademir Cândido, de 50 anos.
Mashio tem um jeito peculiar de ensinar o ofício. Fala do pão como se tratasse da vida. Podemos contar a história da humanidade através do pão, vocifera enquanto mostra o resultado do primeiro dia da oficina: vários pãezinhos que utilizam como ingredientes básicos polvilho e queijo. No primeiro dia da oficina, anteontem, foram desenvolvidas duas receitas. Até o final dela, os presos vão dominar oito, além de algumas questões que Mashio procura abordar durante as aulas.
Mashio pilota a cozinha há quatro décadas. Esteve no Filo pela primeira vez o ano passado. Esta é a primeira vez que ele ministra uma oficina para detentos, mas em São Paulo desenvolve trabalho semelhante com mães solteiras. É difícil entrar no mundo deles (presos). Tem que ir com cuidado, ensina.
No primeiro contato com os detentos, o chef pediu para que os alunos desenhassem o tempo. A coisa mais importante para o pão é o tempo, salienta Mashio, fazendo suspense sobre o resultado do trabalho. A atividade será repetida ao final da oficina. Mashio quer mostrar como a relação com o tempo pode mudar quando se aprende a fazer o pão.
E tempo diga-se de passagem é o que os alunos mais dispõe. Eles se mostram animados com a oficina. De guarda-pó branco e escoltados por agentes penitenciários, eles revelam o resultado do primeiro dia da oficina para imprensa. As receitas foram assadas em fôrmas diferentes e tiveram pelo menos quatro variações. O queijo utilizado é considerado o ingrediente mais raro das receitas dentro da prisão, mas segundo o professor, pode ser adaptado ou retirado da receita sem comprometê-la.
Temos que adaptar a receita de acordo com a possibilidade e realidadade de quem a desenvolve, comenta Mashio. Uma das fórmulas, segundo revela Mashio, foi repassada por uma amiga de infância do chef. É uma receita que está na família dela há 300 anos. Trata-se do Pão da Mazô (ver box). Os detentos aprovaram a alquimia.
Lessandro do Carmo Vieira, 25, condenado a doze anos de prisão por latrocínio (roubo seguido de morte) conta que o gosto do pão é diferente, suave e a receita, fácil de preparar. Os pães feitos durante a oficina são servidos para os outros detentos e também para os funcionários da PEL. A instituição já mantém uma panificadora cujos produtos podem ser comercializados.





