Aos 14 anos, ele começou a ‘‘brincar’’ com bonecos. Seria a porta de entrada para a descoberta do mundo dos brinquedos. Hoje, aos 39 anos, o mineiro Francisco Marques - o Chico dos Bonecos - mora em São Paulo e desenvolve um interessante trabalho de arte-educação com crianças e educadores de todo o País. Esta semana, ele está em Londrina, dando um curso para educadores e oficinas para crianças na ‘‘Ciranda Folclórica - Aprenda Sobre Folclore Brincando’’, evento realizado pelo Sesc Londrina Aeroporto que acontece até sexta-feira.
Formado em Letras, Chico Marques é professor de português, escritor, pesquisador de brinquedos e bonequeiro. Em entrevista à Folha2, ele falou sobre a importância dos brinquedos e das brincadeiras na educação e na vida das pessoas.
Sempre preocupado em recriar objetos com materiais e técnicas simples, Chico Marques começou seu trabalho, como ele mesmo diz, brincando. Os fantoches (bonecos de luvas) e o teatro de sombras foram o ponto de partida na carreira do bonequeiro. ‘‘Sempre trabalhei dentro do improviso e da relação com a platéia. A importância disso é interagir com o público. E tanto o fantoche como o teatro de sombras têm um grande efeito com crianças’’, diz.
O trabalho foi seguindo um caminho que o levou a usar o teatro de bonecos na linha do brinquedo, e não do espetáculo. Depois da apresentação do fantoche ou do teatro de sombras, Chico Marques sempre mostra para a platéia como tudo é feito. ‘‘Procuro trabalhar de maneira simples, para que as pessoas se sintam motivadas a fazer, a criar os brinquedos e brincadeiras.’’ Mas ele explica que ao mesmo tempo em que deve ser uma técnica simples, tudo o que é feito e apresentado tem que ser bonito e agradável. ‘‘A experiência é transformar um objeto simples em alguma coisa desafiante, sedutora. Isto é uma proposta educativa.’’
Para criar os brinquedos, Chico Marques utiliza materiais como caixas de fósforo, carretéis de linha, corda, lã, bolas de meia, enfim, sucata. ‘‘Mas é bom salientar que a palavra sucata às vezes tem um sentido negativo, de pouca durabilidade, de velharia. E não é assim. O Diabolô (um brinquedo milenar de origem chinesa), por exemplo, pode ser feito com uma garrafa de plástico e durar muito tempo’’, observa.
O resultado da brincadeira pode ir além da imaginação de muita gente. E pode também relembrar os brinquedos da infância, já esquecidos pelos adultos e desconhecidos para muitas crianças. O rabo de gato, o bilboquê, as figurinhas dançantes, a cascatinha, o currupia e o enrola-bola. Com certeza, brinquedos que fizeram parte da infância de muita gente.
‘‘O brinquedo é sempre algo desafiante, que mobiliza a atenção, a inteligência, a emoção e a afetividade’’, diz Chico Marques. ‘‘E isso não acontece só com a criança. Esse poder também incide sobre o adulto. O que acontece é que o adulto vai se distanciando das coisas simples com o tempo.’’ Para o professor, o afastamento é ruim para o adulto, porque o ‘‘brincar’’ desenvolve uma série de posturas diante da vida, as quais a vida racional não traz. ‘‘O humor, o compreender o olhar do outro, o ver as coisas com outros olhos...’’
Na opinião de Chico, o ‘‘brincar’’ é essencial para a criança, porque é a única maneira de se conhecer as coisas, se relacionar com as pessoas e enfrentar os problemas que ela vive. ‘‘Vários estudiosos descobriram que no desafio do brinquedo elas encontram os desafios da vida. Existe uma metáfora nisso.’’
Em seu trabalho com adultos, Chico nota que a brincadeira tem um grande valor. ‘‘Os professores, por exemplo, ficam sensibilizados, porque lembram da sua infância. Essa criança tem que estar viva dentro deles. O adulto lembra, vivencia e brinca novamente. Isso ajuda o professor a entender mais a criança, passando a se envolver mais afetivamente em seu trabalho.’’ Além disso, Chico Marques afirma que o adulto também encontra desafios nas brincadeiras. E tudo isso pode se transformar em apoio pedagógico.
Quem não se lembra da brincadeira da ‘‘língua do p’’? Mas hoje, ela é pouco conhecida. O professor explica que a criança pode aprender esta brincadeira antes mesmo de ler e escrever, por causa da música, da sonoridade. ‘‘É um exemplo de como o brinquedo e as brincadeiras podem ser um apoio pedagógico e até mesmo didático.’’
Outro exemplo citado por Chico Marques e que o intriga é o fato do Diabolô, um brinquedo tão popular em outras épocas, ser tão pouco conhecido hoje no Brasil. ‘‘Por que estas brincadeiras vão caindo no esquecimento? Não acredito que seja por causa dos novos atrativos, dos brinquedos eletrônicos. Hoje o Diabolô é febre na Europa. Eu acredito que isso aconteça porque nós, adultos, vamos desvalorizando. É uma autodesvalorização da cultura. Uma cultura tão importante que é universal’’, alega.
O pesquisador observa que os adultos costumam rotular, colocar tudo em gavetas. ‘‘Ah! Interessante esse brinquedo do folclore! - Ora, ele não pode esquecer que o folclore é uma cultura viva. Com os rótulos, o folclore perde o sentido. São brincadeiras antigas que deveriam estar presentes nas nossas vidas’’, conclui.Josoé de CarvalhoChico dos Bonecos e as crianças que participam das oficinas da ‘‘Ciranda Folclórica’’: ele faz questão de mostrar como tudo é feitoJackeline Seglin

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