"Faz Escuro mas Eu Canto", de Thiago de Mello, é reeditado
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quinta-feira, 30 de março de 2000
Por Rodrigo Carneiro 
São Paulo, 31 (AE) - A editora Bertrand Brasil está relançando o livro "Faz Escuro mas Eu Canto", do poeta amazonense Thiago de Mello. O livro, editado pela primeira vez em 1965, tem um lugar especial no coração e na lista dos mais de 25 livros de poesia e prosa do autor. "Ele não é o melhor nem o pior de outros tantos que escrevi e continuo a escrever: é só o mais querido", explica Thiago de Mello, indicado para o Prêmio Jabuti de 2000 por sua mais recente produção, "Campo de Milagre", editada no ano passado.
A predileção por "Faz Escuro mas Eu Canto" é compreensível. Afinal, a obra foi traduzida para mais de 30 idiomas e chega agora, com o relançamento da Bertrand, à 17.ª edição. "Esse número me surpreende, pois não conheço muitos casos de poetas que têm o privilégio de presenciar a 17.ª edição de um livro seu", diz ele.
Usando sempre trajes brancos, "para contrastar com as sujeiras do mundo", o poeta de 73 anos classifica a publicação como uma homenagem à beleza do povo brasileiro. "Por outro lado
os versos não escondem a indignação com a fome injusta que tira o rumo da minha gente", comenta. "Há iluminação, se considerarmos a atual liberdade política, mas ainda faz muito escuro do ponto de vista social", observa, referindo-se ao nome do livro.
O título "Faz Escuro mas Eu Canto" é resultado de uma experiência desagradável. Preso num quartel do Rio, quando da decretação do Ato Institucional n.º 1, de 1964, o poeta viu uma inscrição grifada, em letras fatigadas, na parede da cela: "Faz escuro, mas eu canto, porque a manhã vai chegar."
Ironicamente, o poema síntese do livro tem o termo Ato Institucional Permanente como subtítulo. Os Estatutos do Homem, Ato Institucional Permanente" é um manifesto humanista repleto de artigos solidários. "O livro todo é uma metáfora da esperança."
Thiago de Mello nasceu no município de Bom Socorro, no Baixo Amazonas. Cursou medicina antes de dedicar-se à atividade de escritor. O primeiro livro, "Silêncio e Palavra", veio em 1951, mesmo ano em que ele passou a frequentar círculo dos intelectuais da época. Os poetas Manuel Bandeira, Pablo Neruda e Carlos Drummond de Andrade foram alguns de seus melhores amigos.
Em 1961, foi nomeado adido cultural do Brasil no Chile, posto que ocupou até 1969, quando teve início o seu exílio político. O poeta retornou ao Brasil em 1977, após ter vivido em diversos países da América Latina e Europa. Reside desde então em Barreirinha, cidade de 5 mil habitantes, a 24 horas de barco de Manaus. "A floresta é um milagre", justifica.


