Favorito ao Oscar, "Beleza Americana" estréia amanhã
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2000
Por Antônio Gonçalves Filho 
São Paulo, 24 (AE) - A obsessão dos cineastas estrangeiros pelo declínio do império americano é proporcional ao sentimento autofágico que provoca nos produtores americanos o desejo de bancar filmes sobre o tema. Fruto dessa relação é o mais cotado candidato ao Oscar deste ano, "Beleza Americana", que mostra a decadência desse império pelo diretor inglês Sam Mendes, saído do teatro diretamente para o seu primeiro filme. Sem escalas, depois que Spielberg, um dos chefões da produtora DreamWorks, viu sua sedutora montagem de "Cabaret".
O musical, só para lembrar, relaciona a ascensão do nazismo na Alemanha com a vida de uma alienada cantora e prostituta de cabaré. Mendes é mestre em show biz e conhece bem a cabeça do homem das ruas. Essa consciência faz de "Beleza Americana" um filme para o grande público, elegendo como herói um homem comum, disposto a ser feliz a qualquer custo. Sam Mendes, formado num país de cultura sólida, vê a regressão desse americano à adolescência como patética. Se o conceito americano de beleza é marcado pelo crédito no empirismo, o inglês defende uma maneira distinta de ver o mundo, confiando à arte a tarefa de produzir um feito estético consciente e relevante.
Um americano dificilmente faria "Beleza Americana". Teria de admitir o fracasso, a decadência de gosto que fez dos realizadores americanos presas da tirania alegórica. Mendes, consciente dessa decadência, prefere uma prisão tautogórica. Sabe que esse vácuo estético é um vírus que, atingindo os americanos, se espalha pelo resto do mundo. A testemunha desse novo feito estético é, paradoxalmente, um morto. Ele é o agente e narrador de "Beleza Americana". Lester Burham (Kevin Spacey) acaba de ser demitido quando o filme começa. Sai com uma bolada, ao ameaçar seu empregador com denúncias de fraude fiscal e assédio sexual.
Na sequência, Burham vai para casa e resolve fazer um balanço da vida na ausência de sua ambiciosa mulher (Annette Bening), uma corretora de imóveis. A câmera passeia pela sala, encontra um casal sorridente num retrato familiar, mas é tudo o que resta da sua felicidade. Burham olha para a foto e não consegue mais ver o momento de beleza que a produziu. O vizinho ao lado também procura a beleza americana com sua câmera portátil, mas tudo o que grava é a imagem de seres patéticos como os de sua família, formada por um pai fascista e sua apática mulher.
Traficante de drogas, o garoto aparentemente tímido - e tudo é aparência em "Beleza Americana" - fica amigo da filha de Burham e fornece maconha para o pai desempregado da moça. Este, apaixonado por uma colega de colégio da filha Jane (Thora Birch), volta a fazer musculação, tentando recuperar a juventude perdida para conquistar sua Lolita. A mulher, desprezada, procura consolo em braços alheios, enquanto o marido pratica sexo solitário sob o chuveiro.
Sam Mendes poderia ter feito apenas um cínico retrato dos EUA, mas revela um mal maior: o perigo moral e mortal da alienação americana. Rende-se, aparentemente, aos cânones dessa cultura materialista para mostrar que o homem americano, conquistador da lua e do espaço virtual, volta-se agora para o naturalismo mimético. Ricky (Wes Bentley), o bisbilhoteiro da câmera, é um pobre simulacro dos cineastas "realistas" americanos. Num certo momento, a câmera digital de Ricky registra o pedido da vizinha Jane para que mate seu pai, enlouquecido pela imagem da amiguinha Angela (Mena Suvari).
Mendes prende o espectador à idéia desse crime "regenerador". Na sequência mais reveladora de "Beleza Americana", o garoto cineasta mostra à vizinha namorada o que considera ser o signo maior da beleza para ele: um saco plástico vazio levado ao sabor do vento. O genial fotógrafo Conrad Hall (O Dia do Gafanhoto) forja o aspecto amadorístico do metafísico filme caseiro, sintetizando o que Mendes pensa da beleza americana, sempre deslocada, sempre fora de lugar. Não é a única metáfora (deliberadamente) rudimentar do filme.
As pétalas de rosa que caem nos sonhos eróticos de Burham com a garota são as mesmas que os pintores acadêmicos do século 19 usavam para representar a virgindade perdida das mocinhas. Mendes faz dessas duas imagens - a do saco de plástico e das pétalas - pretextos para traduzir visualmente o que povos mais antigos discutem verbalmente: a angústia metafísica de seres que caminham para a morte. A comovente - e perturbadora - explicação de Ricky sobre a beleza esmagadora de um saco plástico explica a paixão americana pela banalidade numa cultura em formação, que ainda precisa nomear as coisas para existir. Uma sociedade pré-verbal e pré-moral, enfim.
Sam Mendes brinca com essa neurose afásica que atinge não só os garotos como a seus pais nos Estados Unidos (daí o sucesso de filmes sobre e para nerds). "Beleza Americana" é um sucesso graças ao híbrido e criativo cruzamento de todos os gêneros que construíram o cinema americano, da screwball comedy ao thriller histérico de Tarantino. Tem todas as chances de levar um prêmio que, afinal, é o espelho narcisista de uma sociedade iletrada.


