Faturar, o verbo do rato
Antônio Mariano Júnior

ReproduçãoBiografia de Ratinho,
escrita por
Beto Junqueira,
parece conversa
de comadresUm doce de pessoa, ética em forma de ser humano, um exemplo a ser seguido. É bem capaz que ‘‘Coisa de Louco!’’, biografia do apresentador Carlos Roberto Massa, o Ratinho, cause essas impressões aos menos preparados intelectualmente ou a leitores com nenhuma opção de leitura no banheiro. O livro não tem peso literário nenhum. Foi escrito apenas com a intenção de mostrar superficialmente a trajetória ‘‘vitoriosa’’ do apresentador mais polêmico que o mundo cão da televisão brasileira produziu nos últimos anos.
Como biografia, ‘‘Coisa de Louco!’’ se junta a milhares de outros livros do gênero em que se mostram apenas as qualidades da pessoa perfilada com um toquezinho, para que ninguém pense se tratar de um santo, de defeitos. Ou seja, Carlos Roberto Massa é exibido como um sujeito dotado só e apenas de qualidades. O que, pelo menos no vídeo, não é verdade. Se fosse, o apresentador não esmiuçaria chagas alheias de maneira tão desagradável e mesquinha.
O livro foi escrito em primeira pessoa. Depoimento dado ao escritor Beto Junqueira. Que por sua vez não conseguiu, em momento nenhum, arrancar de seu entrevistado algo que realmente valesse a pena. Parece ter tido apenas o trabalho de ligar o gravador e deixar seu interlocutor praticar um monólogo com detalhes, ora divertido (como o capítulo ‘‘Mijando no Cabrito’’), ora simplesmente descartável (‘‘Cagar é cultura’’). Faltam em muitas partes do livro um questionamento maior, uma qualidade que qualquer entrevistador razoável possui.
Ou seja, ‘‘Coisa de Louco!’’ se resume a uma conversa de comadres - uma que conta sua trajetória na base do bom humor e palavrões, outra que se limita a ouvir tais superficialidades e passá-las para frente. No total, 141 páginas e 49 capítulos sintéticos. Alguns dispensáveis - ou pelo menos que poderiam ser encaixados num outro canto qualquer - como o ‘‘Eternamente Hebe’’, com exatas 20 linhas em que Ratinho joga loas a melhor apresentadora da televisão brasileira.
Seguindo uma ordem cronológica, ‘‘Coisa de Louco!’’ vai contando desde o nascimento desse que se propõe a ser um iluminado ou predestinado ao sucesso, passa por dramas familiares (a pobreza, a perda do irmão, a difícil luta pela sobrevivência, os mais variados ofícios), pela breve e opaca carreira política (que pelo andar da carruagem pode a qualquer momento ser ressuscitada) até chegar aos dias de hoje.
E até chegar a hoje, os leitores terão que engolir filosofias de botequim, receitas previsíveis de determinação, pílulas inócuas de otimismo barato e também um monte de palavrão e situações em que ele faz questão de deixar bem claro que continua o mesmo: que veio do povo e é para o povo. Tanto assim é que ele mesmo chama seu programa de tribunal de pequenas causas. Hum!!
E, claro, ele deita e rola quando se trata de lembrar que seu programa, de extremo mau gosto, muitas vezes passou a poderosa Rede Globo em audiência. Até aí tudo bem, é uma realidade. Acontece que Carlos Massa se esqueceu de dizer que é execrando, na maioria das vezes, seres humanos em praça pública ou tratando suas dores de maneira demagógica é que conseguiu - e consegue - tal feito.
‘‘Coisa de Louco!’’ poderia ser menos pobre literariamente se, ao lado de fatos curiosos ou hilários, viesse embalado com uma boa dose de autocrítica. Sim, porque não é possível que uma figura pública, um sujeito popularíssimo como Ratinho esteja acima do bem e do mal.
Comercialesco é apelido para definir a obra. Ou melhor, um adjetivo até elegante, mesmo não sendo o mais apropriado para se falar de um livro que certamente vai vender como água mas que no final vai fazer qualquer pessoa com senso de indignação perguntar: qual é a desse sujeito?

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