Fascinante conto de fé nos livros
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
É justificável que a primeira escolha do público neste feriadão natalino recaia sobre ''Marley e Eu'', também em lançamento nacional a partir de hoje. O apelo do personagem principal é quase imbatível, se confrontadas as propostas a partir das referências que o espectador traz de casa para a jornada nas salas do multiplex local. Marley é ok, mas a primeira recomendação que se impõe é este obscuro (mas somente no sentido de pouco conhecido) ''Coração de Tinta'', que poderá encantar públicos de todas as idades. Muito especialmente quem gosta de ler e desfruta do maravilhoso, mágico poder dos livros.
Sem contar com nenhuma nova adaptação de Tolkien até a chegada do ''Hobbit'' de Peter Jackson em 2011, e com o novo Harry Potter adiado para julho, os produtores europeus e americanos da fantasia ''Coração de Tinta'' claramente imaginaram e realizaram o filme na expectativa de suprir uma lacuna, digamos, lítero-fantasiosa, que de tempos em tempos se abre para imensa parcela de público mundial. Baseado em best-seller de Cornelia Funke (a J.K. Rowling da Alemanha), o filme chega ao Brasil como terceira opção do distribuidor internacional, apenas depois das estréias alemã (11) e inglesa (12). Nos outros mercados, somente a partir de janeiro, EUA inclusive (23).
O herói desta narrativa é o bibliófilo e restaurador de livros Mortimer (Brendan Fraser), que possui o notável dom de trazer à vida personagens dos livros, desde que ele leia em voz alta. O problema é que os ''visitantes'' nem sempre retornam às páginas, e algumas vezes são substituídos por quem ouve a leitura - uma dessas pessoas ''sugadas'' para a outra dimensão, a ficcional, é a mulher de Mortimer, Resa (Sienna Guillory). Para tentar reavê-la, ele e a filha de 12 anos, Meggie (Eliza Hope Bennett), que também possui o dom, vão da Suíça para a Itália, onde se hospedam na mansão da tia Elinor (Helen Mirren), que venera o poder da palavra escrita. A partir daí, pai e filha mergulham num universo de encantadoras complicações, povoado por seres cuja riqueza ficcional somente pode ser encontrada nas melhores páginas do ramo.
O bom, o magia e o encanto desta parte é que a dupla aventureira toma pela mão o espectador que, se quiser tornar-se cúmplice de uma aventura e tanto, deve deixar de lado implicâncias e preconceitos contra títulos que não venham selados com marcas de grife - tipo Disney ou Pixar ou DreamWorks. ''Coração de Tinta'', com direção segura de Iain Softley, oferece a quem quiser aderir a coragem de suas convicções, aliás muito simples mas em desuso pelo cinema que perdeu a inteligência pelo caminho: a arte de bem narrar em imagens uma história que valoriza a palavra escrita. Tudo feito com diversão, esperteza, excitação e um grande, um enorme amor pela literatura.


