Fartura e sabor à mesa
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de novembro de 1997
Carmen Kley Londrina 
A terra que deu ao mundo um escritor como Federico Garcia Lorca e um artista como Pablo Picasso jamais relegaria sua culinária a um plano acanhado. Rica em especiarias e ingredientes exóticos, a cozinha espanhola é um festival de cores, odores e sabores. Da famosa paella ao tradicional puchero, os pratos espanhóis reforçam a imagem de um povo forte, de sangue quente. Tanto é que, segundo especialistas, a comida que os espanhóis trouxeram para o Brasil a partir de 1884, quando chegaram os primeiros imigrantes ao porto de Santos, poucas influências sofreu por aqui.
As características são as mesmas. Um ou outro ingrediente é substituído para adaptar a receita ao paladar brasileiro - confirma Miguel Mula San Pedro, um espanhol da região da Murcia (sul), que chegou ao Brasil aos 14 anos, em 1949. Segundo ele, até mesmo na Espanha a paella pode ser feita com diferentes ingredientes, dependendo da região. No Brasil, normalmente se substitui a carne de coelho por carne de frango e porco.
Miguel, que já foi proprietário de restaurantes (O Espanhol e Miguel Espanhol) em Londrina, aprendeu com a mãe, Aurora, os segredos da cozinha internacional. E, aos 63 anos, resolveu assumir seu destino de mestre-cuca, inaugurando uma escola de culinária. Quero transmitir para outras pessoas o pouco que sei - diz, com humildade.
Segundo ele, a gastronomia espanhola, tão farta, tão mediterrânea, absorveu um pouco da influência de cada uma das culturas que se sucederam pela península ibérica: cartagineses, fenícios, gregos, romanos, visigodos, árabes e judeus. Talvez por isso a culinária desse país tenha algumas peculiaridades, como por exemplo, o uso do azeite de oliva não apenas como tempero mas também para frituras. Além do azeite, a mesa espanhola é farta em pimentões (curiosamente originários da América), azeitonas, alho, cebola, açafrão e carnes.
Comer à moda da Espanha é, ao que tudo indica, entregar-se aos prazeres da mesa sem contabilizar calorias e sem medo do colesterol. Porque, além dos pratos saborosos, as sobremesas são um capítulo à parte. Para se ter uma idéia de quanto o espanhol gosta de doces, a média per capita de consumo anual de chocolate chega a 12 quilos - observa Miguel Mula. Mas puxa a sardinha para sua brasa quando afirma que de toda a comida do mundo, a espanhola é a que mais usa ingredientes naturais.
Como todo bom professor, Miguel Mula diz que cozinhar bem não é privilégio de alguns poucos favorecidos pelo talento. Basta ter vontade e capricho - ensina, e dá a receita número um: um prato se come primeiro com os olhos, por isso a aparência é tão importante quanto o sabor.
Confira agora algumas receitas de pratos espanhóis cedidas à Folha2 por Miguel Mula.


