'FANTÁSTICO' ENFRENTA DECADÊNCIA
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de novembro de 2001
Rodrigo Teixeira<br>TV Press 
O ''Fantástico'' está na lona. Após 28 anos de existência e liderança, o ''Show da Vida'' perdeu, na semana passada, pela terceira vez consecutiva para a ''Casa dos Artistas'', do SBT. O pior para a produção global é que a diferença de pontuação entre os dois programas está aumentando: no primeiro domingo, ficou em 33 a 25. No segundo, 36 a 29. E no último, dia 11, foi 40 a 26 de média, sendo que a atração de Silvio Santos chegou a bater os incríveis 45 pontos de pico. Desta maneira, a ''Casa dos Artistas'' conseguiu mais de 10 pontos de vantagem. A Globo está visivelmente assustada com tantos cruzados certeiros que está recebendo de Supla, Núbia Oliver, Alexandre Frota e Cia. Só falta Pedro Bial trocar o infame ''Saúde e paz, o resto a gente corre atrás'' de encerramento do ''Fantástico'', por um atordoado ''Anotou a placa, Glória Maria?''.
O programa global está realmente sendo atropelado pela produção apelativa, é bom ressaltar do SBT. A questão é que a ''revista dominical'' da Globo está utilizando uma tática equivocada para combater o inimigo. Em vez de tentar tirar proveito das próprias características, que seria investir no padrão de qualidade da informação e no conteúdo das matérias, o ''Fantástico'' está escancaradamente tentando se nivelar com o inimigo. E realmente não está dando certo porque, baixaria por baixaria, o espectador vem preferindo a ''original'' do SBT, supostamente decalcada do ''Big Brother'' da holandesa Endemol.
Na última edição, por exemplo, o ''Fantástico'' deu um verdadeiro show de reportagens repugnantes e sensacionalistas. Isto já havia acontecido com a matéria em que mostrava soldados brasileiros sendo maltratados por superiores na Amazônia. Mas a ação acontecia no distante ano de 1996 e por isso já havia sido recusada por William Bonner para o ''Jornal Nacional'' há, pelo menos, um mês. Mas o ''Fantástico'' requentou a matéria, pois precisava de iscas de audiência. Não adiantou muito. Apelou para matérias sobre troca de sexo. Idem. Sem perceber que está no caminho errado para bater a ''Casa dos Artistas'', o programa insiste.
Para citar dois exemplos, exibiu uma matéria sobre tráfico de órgãos e consumidores que encontram objetos estranhos dentro de produtos diversos. Pautas frias e que poderiam ser exibidas em qualquer edição do ''Fantástico''. A primeira reportagem poderia ser definida como tétrica, pois era sobre um médico que tinha esquema para retirar órgãos de pessoas já enterradas. Um dos entrevistados chegou a dizer como desossava os defuntos. Indigesto, no mínimo. A outra matéria mostrava uma dona de casa lembrando como achou um rato dentro de um saco de arroz. Duplamente indigesto.
O que salva a produção da Globo é a pequena parcela do programa que ainda tem maior ligação com a tradição do ''Fantástico''. Ou seja, divertir a família inteira no domingo à noite e fazer com que vovôs e netinhos esqueçam que têm de trabalhar no dia seguinte. Por isso, os quadros comandados por Maurício Kubrusly, ''Me Leva, Brasil'', Renata Ceribelli, ''Elas Só Pensam Nisso'', e Denise Fraga, ''Retrato Falado'', são justamente os mais interessantes do programa. São criativos e, principalmente, mostram o povo brasileiro de maneiras diferentes. Outro acerto do ''Fantástico'' é o quadro apresentado pelo médico Dráuzio Varella, o ''E Agora, Doutor?''. Varella, que tem uma linguagem direta, percorre bairros carentes e entra na casa das pessoas falando o que deve fazer para combater determinada doença ou como se prevenir de moléstias.
Mas nada ameniza a insuportável presença do mágico Mister M, que agora revela truques tatibitates. Ou mesmo as matérias de Glória Maria e Pedro Bial. Este último, que já teve seus dias de bom repórter, foi à China fazer uma série de reportagens pouco impactantes, como a preocupação dos chineses para salvar o ursinho panda. O pior é que o ''Fantástico'' ainda se presta a tentar levantar a bola de outros programas da Globo, como a novela ''O Clone'' ou ''No Limite 3''. Dispensável e duvidosa, por exemplo, a matéria que dizia que a novela das oito está lançando a moda do Oriente no Brasil. Se existe alguma moda hoje, é de ver ''Casa dos Artistas'', do SBT, um dos programas de mais baixo nível nestes 51 anos de televisão tupiniquim.


