Fantástica fábrica de brinquedos
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segunda-feira, 06 de março de 2006
Liliana Onozato<br> Reportagem Local 
Você já sabe que garrafas tipo pet vazias, caixas de papelão, latas e outros tipos de embalagens podem ser reaproveitados, levados a um processo químico e até retornarem em outro formato, certo? Mas também podem ser matéria-prima para a construção de muitos brinquedos que, além de divertidos, são facilmente confeccionados por qualquer pessoa.
É o caso de Alana Gentil Carani, de apenas 5 anos, que adora a sua boneca bailarina que tem quase o seu tamanho , mas dedica a mesma atenção aos brinquedos criados por ela com sucatas.
Um pedaço de isopor, que anteriormente acolheu um aparelho eletrônico, virou um banquinho especial para ficar em seu quarto. ''Gosto muito desse banco porque eu colei figuras de revistinhas antigas e também tem algumas cores de tinta pintadas nele'', justificou Alana.
Os atrativos de se criar peças lúdicas com recicláveis para a hora da diversão percorrem desde fatores relacionados à criatividade e autonomia até a abordagem de educação ecológica no universo dos pequenos. Por exemplo, dentro desse último segmento, a criança terá a oportunidade de aprender os conceitos de redução, reutilização e a própria reciclagem do lixo gerado dentro de casa ou na escola. ''Mas isso é uma lida diária. Não adianta as escolas abordarem esse assunto apenas durante a semana do meio ambiente, e o mesmo não deve acontecer dentro de casa. Vamos supor que para plantar uma flor você necessite de um vaso. O que fazer, comprar um? Por que não recortar o fundo de uma garrafa de plástico e utilizá-la com esse intuito? E assim por diante'', ponderou Ana Tereza Gôngora, coordenadora pedagógica da Escola Apoena, em Londrina.
Pedaços de papelão, papel, cola, tinta, um dado e meia dúzia de tampinhas se transformam no jogo de tabuleiro, com roteiro a ser escolhido pela criançada. Ou, dando vazão ao lúdico, um jogo de dominó gigante feito a partir de papelão, cola e tinta se apresenta como uma ótima alternativa de brincar no quintal.
Entretanto, o que se modifica também é a postura dessa criança com o seu entorno. Na hora de fazer um brinquedo oriundo de sucata é necessária a interferência direta de quem o está preparando para que a brincadeira aconteça. O momento de decidir o que uma lata de extrato de tomate vazia e um barbante podem significar juntos, deixa claro que o processo do ''criar'' geralmente é mais importante para a criança do que o resultado final.
''Enquanto ela está envolvida na construção desse brinquedo, além da criatividade e envolvimento, ela estará imprimindo parte do seu jeito de ser e sua interpretação particular da realidade. Ela vivencia o seu brinquedo'', comentou Ana Tereza.
Com tamanho inferior à sua esperteza, Alana curte cada etapa do processo de ''fabricação'' de seus objetos de diversão, e claro, sentada em seu banco personalizado: para fazer uma piaba, o ato de cortar a fita adesiva e colá-la junto a um pedaço de papel crepom no jornal parece ser a brincadeira mais divertida, mesmo não tendo chegado à metade da etapa para que estivesse pronto.
Enfim, seria o caso de fazer apologia contra as belas Barbies, carrinhos com controle remoto, vídeo-game, e uma série de brinquedos industrializados? De acordo com a coordenadora pedagógica, não necessariamente. ''Na hora de buscar alternativas de diversão interessantes para essas crianças é necessário verificar em qual critério está sendo utilizado, qual é a proposta de vida para elas. Essa é uma condição de escolha muito importante dos pais e dos educadores também'', disse Ana Tereza.
De acordo com Nelci Cereda Barreto, educadora de uma das unidades do Sesc Londrina, os pequenos valorizam mais quando o objeto nasce da imaginação e se concretiza com o auxílio de suas mãos. ''Se tivéssemos um termômetro para avaliar, com certeza a criança se mostraria mais realizada com o brinquedo feito por ela ao invés daquele recebido pronto e empacotado. A mãe, por exemplo, não deixaria que a filha cortasse o cabelo da boneca ou pintasse seu o rosto, alegando que tal atitude estragaria o presente'', argumentou Nelci.
É fato observar que os meios de consumo atuais oferecem uma infinidade de produtos com embalagens descartáveis. Determinados resíduos, até que se decomponham, duram cerca de quatro mil anos, como é o caso do vidro. Para se ter um exemplo mais próximo, esse jornal que você está lendo leva aproximadamente seis meses para se decompor completamente.
A educadora enfatiza que a conscientização ecológica deve ser incentivada o quanto antes possível. ''E por que não utilizá-la nesse processo de criação de brinquedos? Quando ela passa em frente ao lago Igapó e vê garrafas jogadas, se tiver essa noção de reciclagem, irá relacioná-la a um material que pode ser reaproveitado e saberá que não é uma atitude inteligente jogar lixo em qualquer lugar. A criança aprende brincando, desenvolve sua coordenação motora, exerce a criatividade e ainda preserva a natureza'', revelou Nelci, também especialista em psicopedagogia.
E nessa brincadeira, vale também contar com a participação dos pais. Afinal, pode parecer contradição, mas brincar é coisa séria. Já pensou o que fazer com aquelas garrafas de refrigerante vazias? Então mãos à obra.


