Antes de qualquer pessoa criar um rótulo para sua literatura, o escritor paulistano Santiago Nazarian proclamou ele próprio um rótulo para seus escritos: existencialismo bizarro.
Autor de cinco romances, Nazarin está publicando agora seu primeiro livro de contos, ''Pornofantasma'', lançado pela editora Record. O volume reúne 14 contos que exemplificam com clareza o chamado existencialismo bizarro, termo que pode gerar várias leituras mas que se ajusta perfeitamente à literatura do autor.
Nascido em 1977, Santiago Nazarian vem sendo apontado nos últimos anos como um dos grandes nomes da nova geração de escritores brasileiros. Trabalhando com elementos da cultura pop e da atmosfera do terror, suas histórias invariavelmente transitam entre a associação da sexualidade com a morte. O humor negro e a homoafetividade, ou a dubiedade sexual, também estão presentes na maioria das histórias. Grande parte de seus personagens vive a transição da adolescência, o caos presente entre a infância e a idade adulta. Um componente que faz com que seus escritos repercutem com mais facilidade no leitor jovem.
O conto que se destaca no volume é justamente aquele que dá nome ao livro, ''Pornô Fantasma''. Nele o autor narra a história de um sujeito que perdeu o filho adolescente vítima de overdose. Tempos depois, assistindo filmes pornôs gays, o sujeito descobre um ator que é a cara de seu filho. Sob o impacto da descoberta, decide que precisa salvar o rapaz da destruição, algo que não conseguiu fazer com seu filho.
Assim o sujeito parte em busca do rapaz. Em suas investigações, descobre que os filmes são produzidos numa pequena cidade do interior, uma cidade que detém a produção de mercadorias sexuais de toda ordem.
Quando coloca os pés na cidade, logo percebe que não está numa cidade normal. Mistérios e enigmas se espalham por todos os lugares ao lado de figuras deliberadamente estranhas. A imagem que se apresenta é de uma cidade fantasmas habitada por resquícios de alguma coisa difícil de ser nomeada.
Em sua busca, o sujeito confunde as situações mais bizarras com sua própria crise existencial. Como num filme de terror, a atmosfera da cidade começa a abduzi-lo.
Uma das características da literatura de Santiago Nazarian está na extensão da narrativa. Não existe tesoura em sua mesa de trabalho. A concisão é sumariamente mandada para outra galáxia. O próprio Nazarian trata o assunto com as seguintes palavras: ''Sou um autor do exagero. Eu não corto. Isso é minha marca, parte do meu talento e também grande parte dos meus defeitos. Não me interesso pela concisão ou pela sutileza, como autor. Mas é sempre um aprendizado transformar esse exagero em algo palatável e coerente.''
Nos contos de ''Pornofantasma'' não existe sorrisos. Alegria é uma peça de museu escondida na última gaveta da última sala entre poeira e teias de aranhas. A tristeza é uma atmosfera soberana. Não se trata de lágrimas, nem de ranges de dentes, apenas a constante presença de algum tipo de ferimentos e cicatrizes na mente dos personagens. Vale lembrar que Santiago Nazarian já foi adepto da body art.
Serviço
Pornofantasma
Autor - Santiago Nazarian
Editora - Record
Páginas - 320
Quanto - R$ 44,90
Fragmento:
Os meninos bronzeados riam e flertavam com as meninas. As meninas morenas cantavam. Numa roda em frente ao fogo, um grupo passava um baseado. Estavam todos ali, festejando, alheios ao seu terror.
''Existirão vermes que se alimentam de mim'', ele murmurou para si mesmo. Respirou fundo e parou um instante, para recuperar o fôlego.
A trilha ficou para trás, atrás ficaram as risadas e os gritos. O mato ficava no fundo da praia, acenando para o velho, saudando o espetáculo da juventude.
O velho foi rastejando pela areia. Passou pelos jovens, alguns olharam, então desviaram o olhar. Ele era quase invisível. Lutou para ficar em pé. Eles seguiam cantando, rindo, fumando e flertando, como se a natureza não lhes oferecesse nenhum perigo. A natureza não lhes oferecia nenhum perigo.
Assim, o velho seguiu em frente. Com esforço ficou em pé, tentou recuperar alguma dignidade. Deu alguns passos com o corpo todo doendo. Foi até o mar para lavar suas feridas.
(Fragmento do conto ''O Velho e o Mato'', que integra ''Pornofantasma'', de Santiago Nazarian)

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