Filme genial e polêmico, que abriu mostra de Veneza, tem hoje sua estréia no Brasil
France PresseNicole Kidman e Tom Cruise no Festival de Veneza: protagonistas do último filme dirigido por Stanley KubrickAo longo dos 159 minutos das poderosas imagens de ‘‘Eyes Wide Shut’’, uma incômoda, dolorosa sensação de perda vai se impondo. Quando Alice, o personagem vivido por Nicole Kidman, diz na cena final para o marido Bill (Tom Cruise), ‘‘let’s fuck’’, de maneira tão simples, tão complexa, tão amadurecida, tão desamparada e tão cheia de esperança, é possível medir a extensão da tragédia que foi o desaparecimento de Stanley Kubrick, aos 73 anos. Ninguém como ele para fazer uma tal varredura para fora do tapete, para esquadrinhar com tal precisão cirúrgica uma das mais íntimas regiões do indivíduo: a questão do casal, a crise de identidade de duas pessoas, a soma ou subtração de duas personas. Se muitas vezes parecia incômodo conviver com o universo assombroso de Kubrick quando em vida, agora vai ser impossível sobreviver sem o seu fantasma. A fascinante odisséia polêmica em torno de ‘‘De Olhos Bem Fechados’’ está apenas começando.
Editado pela primeira vez em 1926, a história ‘‘Traummnovelle’’’, escrita pelo vienense Arthur Schnitzler, foi a fonte para o roteiro de ‘‘De Olhos Bem Fechados’’. Um roteiro que coloca Tom Cruise como um médico bem-sucedido, casado há 9 anos com uma bela mulher, Nicole. O casal tem uma filha, Helena, e mora em Nova York (para notar: a Manhattan de Kubrick é uma cidade fora do tempo, estranha, européia nos tons e enquadramentos, feita a partir de uma espécie de deslocamento espácio-temporal para conter na medida justa a dimensão onírica da proposta kubrickiana). Novamente em casa depois de uma festa às vésperas do Natal, o casal Harford relaxa na cama. Um baseado afrouxa freios inibitórios, liberando a princípio pequenas inconfidências. Mas Alice desce mais fundo e agita as águas calmas de Bill. Confessa a ele desejos e fantasias reprimidos nos últimos anos de letargia conjugal. É só o que basta para Bill empreender uma longa e apavorante jornada noite adentro, que o vai conduzir a uma série de eróticas (ou seriam todas antieróticas ?) situações-limite.
Uma das chaves - e apenas uma delas - para penetrar neste universo de sonho proposto por Kubrick é a frase conceitual da mulher dele, Christiane, que está em Veneza mas não compareceu à coletiva. Deveria, por razões evidentes. ‘‘O filme - disse ela - tem pouco a ver com sexo e muito a ver com o medo.’’ E não há por que duvidar de quem dormiu com o diretor nos últimos 41 anos. É possível acrescentar vários, inúmeros outros elementos a esta estimulante aventura existencial-psicanalítica que coloca num mesmo círculo Eros e Thanatos, os riscos de sonhar e fazer dos sonhos realidade, e afinal conviver com a dor dos sonhos materializados. Como sempre, e depurado por um talento que o tempo só fez mais inquestionável, Kubrick é o mestre supremo ao expor a ambiguidade da natureza humana. Sempre sensível àquela visão do mundo segundo a qual esta mesma ambiguidade (bem ou mal indissociavelmente ligada) corresponde à inquietante ambiguidade do universo. Um filme para ver, com urgência. E rever, idem.

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