São Paulo - Enquanto é inegável o sucesso dos livros de fantasia estrangeiros - leia-se ''Harry Potter'', ''Crepúsculo'' e ''O Senhor dos Anéis'', além de outros genéricos -, surgem por aqui autores de várias idades, que resolveram transitar pela mesma seara, mas com foco em personagens diferentes. São fadas, anjos, entidades do candomblé e até o curupira.
Quando criança, o hoje ilustrador Walter Tierno, 38 anos, adorava ler as revistas em quadrinhos de Conan, o Bárbaro, um guerreio que vagava lutando contra feiticeiros, monstros, vampiros, demônios e lobisomens, criado por Robert Howard. Em 2000, ele começou a fazer o seu próprio gibi. ''Foram quatro anos desenhando e escrevendo. Consegui até colocar a primeira edição nas bancas'', conta. ''Mas foi um fracasso total. Fiz burrada''. Ele mandou imprimir 2 mil exemplares, mas vendeu apenas 200. ''A condução da história não foi boa'', afirma.
Há três anos, ele teve outra ideia. Dessa vez, um livro. ''Me inspirei em ''O Senhor dos Anéis'', mas não queria usar a cultura celta. Queria uma coisa mais local, com a qual as pessoas pudessem se identificar.'' Assim, nasceu ''Cira e o Velho''. A personagem-título é filha de Cobra Norato, figura folclórica do Pará. Ela vive à caça do bandeirante Domingos Jorge Velho (o Velho do título do livro), que matou sua mãe e a deixou para morrer.
A história se passa num Brasil em desbravamento, contemporâneo a Zumbi dos Palmares. ''Como ponto de partida, passei a estudar toda a história brasileira, procurando o melhor momento para situar a Cira'', explica o autor. Personagens do nosso folclore foram inseridos, como boitatá e curupira. E o saci? ''Não queria queimar cartucho logo de cara'', conta ele, que pretende fazer uma sequência do livro.
Tierno é formado em jornalismo, daí sua facilidade em escrever. Mas isso não é necessariamente uma regra. Com quatro livros de literatura fantástica publicados, Nelson Magrini, de 55 anos, é formado em engenharia mecânica. Tem dois hobbies um tanto distintos: a literatura e a física. Em 2004, publicou seu primeiro livro, ''Anjo: A Face do Mal''. ''Mas já era o terceiro que tinha escrito'', explica. Com uma história que mistura anjos, demônios e entidades afro-brasileiras, ele narra as aventuras de Lúcifer, um anjo caído. A primeira edição, com 1.500 cópias, já está esgotada. ''Em setembro, vai sair uma nova impressão, revisada'', avisa.
Autores novos, esses sim, muito inspirados no sucesso da série de Harry Potter, também ingressam no mundo da fantasia. A estudante de jornalismo Carolina Munhóz, de 21 anos, e o soteropolitano Eric A. A. Oliveira, de 16, são representantes dessa nova geração. Nascida em São José do Rio Preto, mas moradora de Campinas, Carolina publicou ''A Fada'' em 2009, após investir R$ 7,5 mil do próprio bolso. ''Recebi muitas respostas já preparadas pelas editoras, elogiando o livro, mas dizendo que não seria possível investir nele naquele momento'', diz. A obra fala de uma menina que, aos 18 anos, descobre ser uma fada. ''Aproveitei essa figura mágica que pouco aparece na literatura. A mais famosa é a Sininho, da história do Peter Pan''. Hoje, a jovem passa de três a quatro horas por dia respondendo a e-mails e mensagens de leitores no Facebook, Twitter e Orkut.
Cursando o primeiro ano do Ensino Médio, em meio a uma geração ''informatizada'', Eric mantém o costume de escrever suas histórias com papel e caneta. Desde os 11, ele cria a trilogia que conta a saga de Carlos Looendvog, um menino que descobre ser de uma linhagem de caçadores de dragões. O primeiro livro, ''O Dragão do Ventre de Ouro'', teve lançamento na última Bienal do Livro, em São Paulo. O escritor mirim ainda não sabe se seguirá carreira, mas têm outros livros na cabeça. Já é uma mostra de que nem só de vampiros e bruxos sobrevive a literatura fantástica no Brasil.

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