Fantasia versus sistema
O cinema brasileiro resiste apesar das adversidades cada vez mais constantes. Bom exemplo é um das melhores produções nacionais do ano passado, O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas, documentário dirigido por Paulo Caldas e Marcelo Luna. É uma ótima oportunidade para se ter contato com uma obra que não foi exibida nos cinemas paranaenses. O filme mostra a realidade das periferias das grandes metrópoles, especificamente Recife e São Paulo. A história é centrada em dois personagens reais: Garnizé, o baterista da banda recifense Faces do Subúrbio, e Helinho, o pequeno príncipe do seu bairro, responsável por 44 homicídios, condenado a 99 anos de prisão.
São duas faces de uma realidade que está estampada todos os dias nos jornais, mas que parece não ter solução. O subúrbio aqui, diferentemente do que se apresentou em Orfeu de Cacá Diegues, é real. O drama dessas pessoas é real. Elas matam por necessidade ou por simples vontade. É quase uma vingança contra a sociedade que os renega. Em certo momento, um dos entrevistados explica o que é uma alma sebosa - ele diz: é um ser inútil, que não serve pra nada. Toda esta revolta contra as almas consideradas sebosas simboliza um descontentamento contra a própria condição daquele que mora em uma favela, que não tem saída. Eles sentem um certo prazer em exterminar aqueles que são como eles, como se isso resolvesse seus problemas.
Paulo Caldas (co-diretor do ótimo Baile Perfumado) e Marcelo Luna (do curta Ópera Cola) registram com perfeição esta vontade de se rebelar contra tudo e contra todos, o que leva a uma justiça individual, daí surgindo os justiceiros. Outra consequência que se observa frequente nas periferias é a manifestação de revolta por meio da música. Aí temos o RAP.
Apesar de sua origem americana, o RAP é muito semelhante à embolada nordestina. RAP significa Rithmy and Poetry (Ritmo e Poesia). É a mesma substância que forma a embolada: ritmo e versos desenfreados. Essa pode ser uma das razões capaz de explicar por que o fenômeno RAP se deu tão bem no Brasil. Tanto o RAP como a embolada utilizam procedimentos simples. A essência é o improviso, e é por isso que eles se sentem tão livres para se expressar no RAP.
Esse fenômeno dos anos 80, e que praticamente explodiu nos anos 90, pela primeira vez é radiografado em um filme brasileiro. E esse é o grande mérito de O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas. Um tema extremamente atual, tratado com seriedade e ousadia, evitando sensacionalismos. O filme foi elogiado no último Festival de Veneza e aplaudido no Festival BR do Rio do ano passado. É um raro caso de ousadia na narrativa e seriedade no tratamento de um tema que pode ser batido a miséria brasileira mas será sempre atual.
Lançamento da Europa: 75 minutos.
OUTROS LANÇAMENTOS
ReproduçãoObra impregnada de realismo mágico, em co-produção entre México, EUA, Canadá e França
Santitos
A poeta Adélia Prado encara a arte como uma manifestação religiosa; e a religião, como uma manifestação artística. Pois as duas estão voltadas para o mistério. Após três anos de sua produção, Santitos que trata do mistério que nos cerca chega às videolocadoras. A co-produção entre o México, EUA, Canadá e França é uma das melhores películas realizadas sobre o tom passional tão intrínseco aos latino-americanos. Essa comédia fantástica, dirigida por Alejandro Springall, é baseada em novela homônima de María Amparo Escandón. A premissa é simples: Que você faria para recuperar a sua filha? Você chegaria a se prostituir, por exemplo? Partindo desse questionamento, Springall realizou uma obra deliciosa, embalada por um realismo mágico próximo ao de Gabriel Garcia Marquez.
Lançamento da Europa: 75 minutos.
ReproduçãoMesmo com acréscimos de cenas inéditas, nova versão não se revela mais sedutora que a original
O Exorcista
Filmes como Soberba de Orson Welles, Apocalypse Now de Francis Ford Coppola ou Metropolis de Fritz Lang realmente merecem ser revistos à maneira que o diretor os idealizara; pois a grandeza da narrativa pessoal costuma se perder nas mãos de produtores. Entretanto O Exorcista de William Friedkin, com a exceção de ter 10 minutos a mais da versão original de 1973, nada nos revela. A essência da história de uma garotinha que é possuída pelo demônio já está lá no original. A trama, que aterrorizou a platéia nos anos 70, permanece forte, com requinte visual apurado para os thrillers de horror daquela época. Friedkin (Operação França) era um ótimo contador de histórias, sabia como conduzir o público ao horror mais profundo o desconhecido. Mas para quem quiser se aprofundar mais nessa relação entre Lúcifer e o homem deve alugar uma edição comemorativa de 25 anos da produção, com making-off e segredos do filme que fez muitos dormirem com a luz acesa...
Lançamento da Warner: 132 minutos.





