Fantasia retomada
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sábado, 15 de junho de 2013
Geraldo Bessa<br>TV Press 
Ricardo Linhares é do tipo que, quando coloca uma coisa na cabeça, dificilmente desiste. Foi assim com seu projeto de adaptação da mítica "Saramandaia", de 1976, proposto para o horário das seis e engavetado pela Globo em 2005. "Era o único horário de remakes da emissora na época e seria uma novela baseada no lado mágico da história", relembra.
Com a abertura de mais um horário de teledramaturgia, às 23 horas, Linhares viu a possibilidade de levar ao ar a metáfora política e social assinada pelo saudoso Dias Gomes em 57 capítulos e com toda a liberdade que a faixa assegura. E é com notável satisfação que ele fala sobre sua versão da trama, com previsão de estreia para o próximo dia 24. "Foi uma novela que marcou a juventude da minha geração. Dessa vez, a Globo aprovou na hora. Mostrar essa história de forma moderna e com os efeitos visuais dos dias de hoje me estimula muito", valoriza.
Carioca e jornalista por formação, Linhares chegou à tevê no início dos anos 1980, quando começou a estagiar na antiga TVE Brasil, hoje TV Brasil. Em um curso de roteiro, chamou a atenção do autor Doc Comparato e foi para a Globo, onde escreveu episódios do "Caso Verdade" e passou a fazer roteiros e esquetes cômicas no programa "Viva O Gordo", de 1983. "Fiquei alguns anos escrevendo para o humorístico do Jô. Aprendi muito ali, mas chegou um momento onde o interesse e a vontade de fazer novelas falou mais alto", conta Linhares, que, depois de participar de oficinas de teledramaturgia promovidas pela emissora, foi convidado a ser colaborador de Aguinaldo Silva em "O Outro", de 1987.
A partir dessa parceria, tornou-se coautor de tramas de sucesso como "Tieta", "Pedra Sobre Pedra" e "A Indomada". Curiosamente, todas flertaram com o realismo fantástico inaugurado por Dias Gomes. "As novelas que escrevi com Aguinaldo eram muito divertidas. Muito por esse uso da metáfora da fantasia", analisa.
Além de Aguinaldo, outra parceria profissional frequente de Linhares é com Gilberto Braga. A dupla criou novelas do quilate de "O Dono do Mundo" e tropeços como "Insensato Coração". "Meu trabalho com o Gilberto é mais urbano e realista. É bom passear por mundos tão diversos", ressalta.
A influência do realismo fantástico de Dias Gomes é muito forte no seu trabalho, sobretudo nas tramas que você dividiu com Aguinaldo Silva. O que o motivou a revisitar "Saramandaia", uma das obras mais míticas de Dias?
Eu tinha 14 anos quando a novela foi exibida. Não acompanhava sempre porque, naquela época, a novela das 22 horas era para os adultos e eu tinha de acordar muito cedo no dia seguinte. Sou filho de militar e na minha casa ver tevê era bem complicado. Tinha uma marcação muito rígida. O pouco que vi de "Saramandaia" mexeu muito comigo. Na verdade, com toda a minha geração, pois era o assunto da turma no dia seguinte. Hoje em dia, o público que não acompanhou a primeira versão sabe que houve uma novela que tinha uma cara que colocava formiga pelo nariz e uma mulher que explodiu, mas não associam isso a "Saramandaia". É um resgate.
Assim como aconteceu com a sua geração, você acredita que a nova versão possa atrair também um público mais jovem?
Hoje a garotada faz e assiste ao que bem quer. E acho que o lado lúdico de "Saramandaia" seja um atrativo. Mas é bom deixar claro que, embora tenha muitas brincadeiras e personagens mágicos, não é uma trama jovem e muito menos infantil. Apesar de tudo ser entremeando pela graça e pela comédia, tanto a versão original quanto esta são baseadas em tramas políticas e contundentes, que debatem respeito, intolerância, corrupção e sexo.
No lançamento da novela, você disse que considera sua versão de "Saramandaia" mais como uma homenagem ao trabalho do Dias Gomes do que um remake. Ter total liberdade autoral foi uma exigência sua para este trabalho?
Nem precisei fazer qualquer pedido especial para mexer na trama. Sem pudores, tirei tudo o que julguei ultrapassado e datado. É por isso que o núcleo capitaneado pelo Tenório Tavares, que era interpretado pelo Sebastião Vasconcellos, sumiu. Esse núcleo fazia oposição ao Zico Rosado, em uma trama política que só era interessante em meados dos anos 1970. Aproveitei alguns nomes e adicionei personagens novos, com histórias totalmente distintas. E caprichei na ação. Seria impensável fazer uma novela com os temas de "Saramandaia" de forma arrastada. Então, minha versão tem explosões, tiros e perseguições. Toda uma movimentação que não existia na primeira versão.
Recriar a novela de forma tão diferente é um jeito de você, mesmo partindo de um texto alheio, manter um tom mais autoral no trabalho?
Não é só isso. O fato é que os anos que separam a novela original e a nova versão revelam um jeito de fazer e apresentar teledramaturgia totalmente novo. Tive a preocupação de que cada capítulo tivesse uma "virada" interessante, que prendesse o telespectador para o dia seguinte. Não dava para repetir o que foi feito. É por isso que a novela tem muita novidade.
A dinâmica e a trama de personagens conhecidos como Dona Redonda e João Gibão também mudam em sua versão?
Bastante. A Dona Redonda, por exemplo, explodia no capítulo 26 de uma novela de 160 capítulos. Exceto a excentricidade, ela não tinha importância alguma na trama criada pelo Dias. Na nova versão, não. Ela explode próximo do final e tem história própria, baseada nas relações dela com o marido e a filha. Ter bons atores ajuda muito o autor e, no caso, o fato de a intérprete ser a Vera Holtz me inspirou a dar mais espaço para a Dona Redonda. No caso do João Gibão, ele continua importante para a história, mas deixa de ser a figura central.
Os protagonistas agora são Zico e Vitória, de José Mayer e Lilia Cabral. Por que centralizar a novela em uma história de amor?
Essa trama foi criada porque no original não existia história de amor. A Vitória foi escrita especialmente para a nova novela. Ela e Zico são o elo da rivalidade de duas famílias e a base de uma trama totalmente folhetinesca, que envolve segredos e amores mal resolvidos. É a partir deles que eu desenvolvo os desencontros amorosos e as brigas pelo poder de várias gerações.


