Curitiba - O Rio Itiberê separa Paranaguá da Ilha dos Valadares, recanto onde mora cerca de 30 mil parnanguaras e que guarda a manifestação cultural das mais expressivas do Paraná. O fandango é riqueza pura, um gênero musical e coreográfico resultado das influências estrangeiras (espanhola e açoriana) e do cotidiano caiçara. O grupo musical é formado por tocadores de viola e de adufe e um rabequeiro, que juntos executam e cantam as marcas ou modas. Cabe aos casais dançarem a coreografia correspondente a cada marca, que relatam histórias do povo caiçara, causos e costumes dos caboclos.
No fandango o maior esforço cabe ao homem, que precisa mostrar a dança no pé, batendo os tamancos no assoalho, ou nas mãos, batendo palmas, num ritmo contagiante. O esforço é grande, não tem aquele que não fique suado. As moças não apresentam uma performance tão enérgica, equilibram o fandango com a formosura e o colorido. No Valadares, um dos propagadores mais atuantes do fandango é o mestre Romão, 78 anos, que se dedica a ensinar aos mais novos essa tradição cultural e a divulgá-la pelo País. Professor e dançarino, desde 1967, emociona o público pela paixão que expressa pelo fandango.
''O fandango antes era quase uma religião. Quando a comunidade se unia para fazer colheita e mutirões, nos casamentos e outras festas, a gente fazia o fandango. O baile acontecia até ficar pronto o barreado. O fandango é o divertimento do caboclo e o barreado é a comida que gostamos'', conta o mestre Romão. ''O Carnaval e o Sábado de Aleluia eram datas oficiais do fandango. Ao final, a gente sempre rezava o Pai Nosso e a Ave Maria e soltava foguetes. As marcas pedem para nos proteger, espantar maus espíritos, fala sobre o amor, amizade'', explica ele.
''Além de ser a minha cultura viva, eu fico emocionada toda vez que danço fandango, porque minha vó era folgadeira (dançarina de fandango). Ela contava que o tamanco de madeira era para pisar o arroz e a saia longa das mulheres ía juntando o arroz que se espalhava pelo chão. A Ilha dos Valadares vale ouro para mim'', disse uma das dançarinas do grupo, Luiza Alves, 16. Todos os sábados, o fandango do Mestre Romão se apresenta em Mangue Sêco. Não dá para perder. (F.G.)

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