Famoso quem?
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 08 de agosto de 1997
Egídio Brizola Londrina 
Arquivo FolhaNo Programa Roda Viva da TV Cultura na semana retrasada, o escritor Márcio de Souza, que é diretor da Funarte, lamentou a pequena estatura de qualidade da crítica literária no Brasil e disse que críticos e publicações brasileiros são do tipo meia-boca, despreparados para a arte. Bem comparando, ele lembrou o poder e a força que a crítica tem nos Estados Unidos, onde os profissionais são sérios, experientes e portanto respeitados, passando a respeitabilidade aos veículos em que assinam suas colunas.
O escritor questionou principalmente a falta de maturidade do crítico brasileiro para fazer o seu trabalho e a falta de cuidado das publicações a quem servem. Para ilustrar, lembrou o caso caricato de um neófito de Redação, no Rio, que, encarregado de produzir um artigo-crítica sobre uma obra de João Antonio, inicialmente tratou de fazer a apresentação do escritor ao público. Só que João Antonio já era famoso, tinha nome conhecido e quilos de obras na bagagem.
Este é um fato isolado, mas o conjunto apresenta as mesmas cores. Como não se faz escola de crítica no Brasil e nenhuma publicação se dedica exclusivamente ao setor, a crítica, sem profissionais nem veículos especializados, aloja-se em jornais, e revistas comuns de banheiro ou vôo. Com espaço disponível, então pode, a crítica, ir de energúmenos a soldo de editoras rasteiras, que festejam tolos livros de amigos, a carbonários que crucificam autores consagrados sem saber do que estão falando.
Na outra ponta, estamos nós, leitores, que ardemos no fogo da mesma padaria. Todo dia lemos coisas assim-assim. E se cochilamos, entramos no lero-lero de gurus e guias que despencam em profusão bobagens disso-daquilo. Eles posam de intelectuais da vanguarda caprichada, mas bem contadinho estão mesmo é escrevendo para igrejinhas, para iniciados ou companheiros engajados na militância.
Mas não é apenas a literatura que sofre de dolorosa literatice dos críticos. Esses chatos estão pousados em todos os setores, como entendidos incontestáveis. Na economia, na política, no esporte, na moda, na culinária. Eles decretam o que é in ou out. Foram eles que fizeram Júnior Baiano ir para a seleção; que deram o preço de US$ 35 mil para o Denílson; que dizem que Arinelson é o novo Giovani; que dizem que macarrão não engorda, que fumar até que faz bem aos pulmões. Financiados pela ditadura econômica, eles esparramam idéias no esterco da nossa expectativa - e geralmente se dão bem - pois nos pegam em flagrante de desatenção.
Foram os críticos que inventaram o caso Mirândola, o caso da Escola-Base, o caso do professor que explodiu o avião da TAM. São eles que reinventaram Monet, plantaram sua memória no Masp, e vivem dizendo que Monet é o must. Ora, prefiro as telas de Regina Menezes. São eles, que no afã de esquentar um assunto, divergem propositadamente do eixo da verdade. Se for preciso, transformam o assassinado em culpado. E acabam confundindo barca velha entrando na barra funda com calça velha rasgada... no joelho. Cortando a própria carne: aqui em Londrina, a morte do cantor Cláudio Faissal mereceu uma coluninha. Cláudio era daqui. Só.
As últimas pérolas com que esses especializados que constroem mitos ou acabam com eles, cutucaram minha urticária foram estampadas numa daquelas revistas semanais, da última semana: que Raduan Nassar é um dos maiores escritores do sul do mundo; que Cacá Carvalho é um dos maiores atores do sul do mundo. Quem? O quê? Disseram que Cacá supera Edson Celulari no Dom Juan de Moliere, e o colocaram alguns degraus abaixo. Ora, Celulari é um ator shakespereano. Cacá.... ? Vamos a Raduan: faz 20 anos que ele escreveu dois livros e no ano passado escreveu um conto. Depois virou fazendeiro, vive retirado, não dá entrevista, gosta de novela. Hoje, aponta o crítico, é o escritor mais festejado pela crítica. Mas o que mais gosta é de dormir, que é o seu nirvana. Mais até do que sexo, disse. E daí?
Desenxavido, apanho esses dois nomes para medir o tamanho e a contemporaneidade da minha ignorância e, junto com o nome de Salif Keita (quem?) apelo a 14 pessoas para uma estatística. Apenas um soube dizer que Salif Keita é um músico, provavelmente africano - ou caribenho. Ou cearense. Ou soteropolitano. De minha parte, só sei que ele foi referenciado por Chico César numa música. Chico César? Aquele do abacaxi atômico implantando no alto do cucuruto, do non sense vernacular de suas letras.
Famoso quem? Apenas um dos consultados identificou Cacá Carvalho como um ator. E Raduan é conhecido de seis. Só um entre os 14 reconheceu dois dos três personagens. Sete deles não identificaram nenhum. O saldo é arrasador - e não somos uma paróquia tocantinense: temos 30 anos de festival de teatro, muita janela de música, resistência histórica à ditadura. Especialistas, zero, nós 10. Eles falam de gente que quase nem existe. Quanto mais tem valor.


