Falta emoção e romantismo às novelas atuais, diz autor
São Paulo, 28 (AE) - Benedito Ruy Barbosa ainda trabalhava como jornalista em meados dos anos 50 quando se submeteu a um exame psicotécnico para ganhar cinco vezes mais como redator de uma agência publicitária. Era a chance de colocar em dia os aluguéis atrasados do sobrado em que morava, na zona norte da cidade, e pensar até na casa própria. Mas foi reprovado e com a seguinte avaliação: "O candidato é muito criativo e seria altamente recomendável não fosse por um fator que não o recomenda em absoluto, não obedece ordens, não cumpre tarefas e só faz o que lhe vem à cabeça".
Pois é fazendo o que lhe vem a essa cabeça genial que Ruy Barbosa se consagrou como um dos maiores novelistas do País. Desde "Somos Todos Irmãos", exibida pela TV Tupi, em 1996, até "O Rei do Gado", levada ao ar pela Globo, em 1996, o autor já escreveu 23 novelas. Entre elas, alguns dos maiores sucessos da TV brasileira: "Os Imigrantes" (1982, TV Bandeirantes), "Sinhá Moça" (1986, TV Globo), "Pantanal" (1989, TV Manchete), "Renascer" (1993, TV Globo) e "O Rei do Gado" ( 1996, TV Globo).
Quanto ao teste psicotécnico, de nada valeu. Ruy Barbosa acabou contratado pela agência e, em pouco tempo, foi convidado para trabalhar na Gessy Lever. A empresa mantinha um colegiado comandado pela cubana Gloria Magadan a quem cabia avaliar os textos que seriam adaptados para o formato de telenovelas no Brasil. Primeira pergunta que Gloria Magadan lhe fez: "Qual conceito o senhor faz da telenovela?" E Ruy Barbosa: "Acho que falta enfocar a realidade brasileira". O Brasil e o brasileiro seriam para sempre a tônica das tramas escritas pelo autor.
Ruy Barbosa escreve como se proseasse com um tabaréu dos tantos que encontra nas viagens que faz pelos cantões do País. Se seus textos emocionam o telespectador é porque antes emocionaram o autor. Todos os seus personagens estão vivos na sua cabeça e quase todos estão espalhados pelas fazendas nos confins da Bahia, nos arredores do Pantanal mato-grossense ou no interior de São Paulo. Uma das personagens de "Terra Nostra", a próxima novela das 8 da Globo que está escrevendo, por exemplo
surgiu da leitura de uma das milhares de cartas recebidas pelo autor enquanto escrevia "Os Imigrantes", exibida pela Bandeirantes em 1982. Na carta, uma senhora de 90 anos descrevia
com riqueza de detalhes, boa parte dos 30 dias que durara a travessia entre a Itália e o Brasil. A carta, escrita de próprio punho, desencadeia a história da novela.
A sensibilidade de escutar e alinhavar causos pode ser o ponto de partida para compreender o sucesso das novelas de Ruy Barbosa. Sucesso que a Globo desprezou por duas vezes e agora não abre mão. Em 1980, a Globo recusou-se a produzir "Os Imigrantes" e acabou esmagada pela audiência da Bandeirantes, que topou o desafio. Em 1989, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, não acreditou na força de uma novela de ritmo lento passada no meio do mato e se recusou a produzir "Pantanal".
Boni chegou a liberar Ruy Barbosa da multa rescisória e emprestou o autor para a "Manchete". Arrependeu-se amargamente. A história de José Leôncio e Juma Marruá bateu os 30 pontos e até quem nunca assistira a novelas andava chegando cedo em casa para ligar a TV. Ruy Barbosa não gosta de falar no assunto, mas foi procurado por diretores da Globo que pediam para ele encurtar "Pantanal". Por causa de erros como esse, no ano passado a Globo renovou o contrato de Ruy Barbosa por sete anos e garantiu o autor até 2005.
O homem que não cumpria tarefas, segundo avaliara o psicotécnico, chegou a emendar três novelas, "Cabocla", na Globo, e "Pé de Vento" e "Os Imigrantes", na Bandeirantes. Isso significa escrever cerca de 800 capítulos ou a impressionante marca de 8 mil páginas. Em 33 anos de novelas, o autor soma perto de 115 mil páginas escritas. Ruy Barbosa define-se como um caipira. "Saio em férias e não viajo para Paris, Roma ou Nova York", diz. "Vou para o mato". Desde que se tornou novelista fez apenas uma viagem para fora do País. Foi a Portugal com o diretor Luiz Fernando Carvalho para dar duas palestras sobre a novela "O Rei do Gado". Compreendeu melhor a dimensão do seu trabalho.
Conta que um dia desceu ao lobby do hotel e deu de cara com uma multidão de repórteres e fotógrafos e achou que fosse para os jogadores do time do Porto que enfrentaria o Benfica naquela noite. "Tomei um susto quando o recepcionista perguntou se eu não atenderia à imprensa que me esperava havia horas", lembra. Inimizades - Para a surpresa do autor, a imprensa portuguesa estava interessada em saber mais sobre a reforma agrária, tema que abordou em "O Rei do Gado". "Entra ano, sai ano e os governos não vão além da superficialidade nesse assunto", afirma o autor. "Só merece a terra aquele que a torna produtiva para si e para o seu semelhante". Por causa da novela, os acampamentos de sem-terra passaram a ter televisão. "E não havia uma só reunião marcada para o horário da novela", orgulha-se o autor. Também por causa da novela, ganhou inimizades entre fazendeiros, que o acusavam de estimular a invasão de terras.
Até chegar a ser um dos mais disputados autores da telenovela brasileira, dono de uma confortável casa de três andares e sete suítes, com quadra de tênis e piscina, situada num terreno de quase 3 hectares (cerca de 67 mil metros quadrados) em Sorocaba, Ruy Barbosa trabalhou duro. Muito jovem saía de casa às 7 da manhã para o escritório de contabilidade e às 10 da noite entrava no segundo emprego: era redator do jornal "O Estado de S.Paulo", de onde saía às 4 horas.
Decidido a tornar-se jornalista e apaixonado por esportes, deixou o escritório e o cargo de redator e tornou-se repórter. Chegou a escrever para cinco jornais ao mesmo tempo. Viu que não podia continuar naquele ritmo no dia em que desmaiou sobre a máquina de escrever. O autor mostra a mesma disposição nas viagens nas quais conhece seus personagens. Memória - De cada viagem, Ruy Barbosa traz uma coleção de personagens devidamente armazenados na sua memória fantástica. Em 1970, numa incursão ao interior da Bahia, com a mulher e os quatro filhos, Ruy Barbosa conheceu seu Visita. Era um matador que, muitos anos atrás, chegara no lugarejo com a ordem de matar seu Firmo, um dos mais respeitados fazendeiros da região. Mas o matador se apaixonou por uma agregada da fazenda e desistiu do trabalho. "O senhor tá encomendado e não sou homem de perder viagem", diz o autor reproduzindo palavras do matador. "Mas quero largar dessa vida porque já matei uns 30 e me afeiçoei a uma tabaroa daqui". Vinte e três anos mais tarde, Ruy Barbosa criou o personagem Damião, interpretado por Jackson Antunes na novela "Renascer". Damião chega para matar Painho (Antônio Fagundes), mas apaixona-se por uma de suas empregadas e fica na fazenda, tornando-se homem de confiança do coronel. Seu Visita definia-se como "gatilho de covarde", expressão que Ruy Barbosa adora. "Pode haver definição melhor para um pistoleiro de aluguel?", pergunta. O autor acha que o horário nobre da televisão deve ser usado de maneira produtiva, senão para informar o telespectador, para emocioná-lo. De uma forma ou de outra, Ruy Barbosa consegue mobilizar o público. "As novelas de hoje sofrem uma crise por causa da falta de emoção e de romantismo, de excesso de cenas de sexo sem sentido e com a decepção do telespectador com os capítulos finais", avalia. Dono de uma capacidade de emocionar o telespectador como poucos, o autor sabe do que está falando.
Em "Pantanal", por exemplo, recebeu um telefonema do já morto Adolfo Bloch, dono da Manchete. O patrão pedia desculpas por estar telefonando e pedia um favor: para não matar o José Leôncio. "Eu respondi que ainda não sabia se ia matá-lo, mas já tinha até escrito a morte dele", conta. E matou. Passava de uma hora da madrugada do dia seguinte em que foi ao ar o capítulo com a morte do pantaneiro e toca o telefone. "Era o seu Adolfo, emocionado, dizendo que nunca tinha visto uma morte tão linda e que a partir daquele dia as pessoas poderiam perder o medo da morte".
A morte meteu medo em Ruy Barbosa ainda menino. Aos 12 anos perdeu o pai e nunca esqueceu do dia em que aquele jovem de 29 anos o chamou para conversar. Alertado por médicos, o pai sabia que uma doença no coração não lhe daria muito tempo de vida. O menino Benedito ouviu pela primeira vez a definição de morte: "Como num jardim, as árvores maiores um dia vão embora para que sua sombra não impeça as pequenas sementes de geminar"
disse o pai. Ruy Barbosa não compreendeu bem a metáfora e chora agora, contando, aos 68 anos, o que não chorou na época. (J.G.)





