Falta de preservação ameaça memória da MPB
A memória de Zé Ketti já não está boa. E ele perdeu a maior parte de seus objetos históricos ao longo da vida. Sua história perdida retrata a dificuldade de se preservar os primórdios da MPB.
Perto da casa de Zé Ketti há uma padaria que foi palco da história da música brasileira, a Daisy. Nas tardes de domingo, Pixinguinha comandava uma roda de choro no local. Com novo proprietário, a Daisy hoje não guarda traço algum de seus tempos de glória.
Mas ocorreram perdas maiores. Quando o LP surgiu na década de 60, as gravadoras tinham as matrizes de seus discos 78 rotações com componentes metálicos. O arquivo, para elas, era um estorvo. Derreteram tudo, disse o crítico musical Zuza Homem de Mello.
O jornalista e historiador Sérgio Cabral lamenta: Não há uma imagem em movimento de Jacob do Bandolim, e ele morreu em 69! As imagens em movimento de Pixinguinha também são raras. Dos musicais dos anos 30, só sobrou Alô, Alô Carnaval.
Zé Ketti tem muitas músicas inéditas. Só existem na memória ou arquivos dos amigos. Seus filhos estimam que podem ser mais de 200. Paulinho da Viola recuperou uma em seu último disco, a canção As Moças de Meu Tempo. Não aceito a idéia de que nós somos relaxados e não cuidamos da memória. A maioria dos artistas não tem condição de preservar arquivos. São muitos compromissos, as coisas vão acumulando e sendo deixadas para depois, disse Paulinho. Para ele, a mídia e o Estado devem prover os meios para a preservação da história da MPB.
A jornalista e cantora Geisa da Silva de Jesus, filha de Zé Ketti, pretende escrever uma biografia contando as histórias do pai e quer fazer um documentário também. Nelson Pereira dos Santos manifestou interesse em dirigir, mas o projeto empaca na falta de verbas.
(S.M.)





