São Paulo, 09 (AE) - Pouco antes das dez da noite, com mais de uma hora de atraso, no dia 18 de setembro de 1950, uma segunda-feira, uma atriz de sorriso largo, cabelos escorridos até os ombros, 20 anos de idade, anunciava: "Senhoras e senhores telespectadores, boa noite; a PRF 3 TV - Emissora Associada de São Paulo orgulhosamente apresenta, neste momento, o primeiro programa de televisão da América Latina". A voz era da radioatriz Yara Lins, mineira de Uberaba que, a partir daquele dia, teria carreira promissora como teleatriz e atuaria em quase 40 novelas na TV Tupi, Excelsior, Cultura, Globo e Manchete até "Os Ossos do Barão", exibida no SBT até agosto de 1997.
Desde então, Yara está em casa. Raciocínio rápido, respostas precisas, memória em dia, aos 69 anos, a atriz espera por um convite para voltar a atuar. "Por causa da idade, fiquei limitada a trabalhar em São Paulo", diz. "Mas estou na ativa". Yara é um dos 200 filiados da Associação dos Pioneiros, Profissionais e Incentivadores da Televisão (Appite), criada em 1996 pela atriz Vida Alves, de 70 anos, para reunir artistas e técnicos que participaram da implantação da TV no País. Pelo menos 80% dos veteranos da Appite estão na situação de Yara: fora do mercado de trabalho contra a vontade. Metade dos sócios da Appite está com as prestações atrasadas. "É o nível mais alto de inadimplentes desde a criação da associação", diz Vida.
Na tentativa de recolocar os veteranos em seus lugares, na frente das câmeras, a Appite estuda a criação de uma bolsa de empregos que constaria de fotografias e um currículo do ator e estaria disponível para emissoras, produtoras independentes e agências de publicidade. A idéia partiu de Lia de Aguiar, uma das estrelas do rádio, com atuação intensa nos teleteatros escritos nos anos 50 por Cassiano Gabus Mendes e Walter George Durst.
A idéia de Lia deverá ser discutida na próxima reunião da Appite. "É ainda uma proposta, mas pode ser o início", diz. Ela, no entanto, se considera uma atriz de sorte. Nos últimos dois anos, atuou em três novelas e montou um espetáculo de teatro, "Você Tem Medo do Ridículo, Clark Gable?", do qual Yara Lins também fazia parte, mas que ficou apenas três meses em cartaz. "Tem muita gente sem emprego na nossa área", diz. "Muitos me ligam desesperados, não há trabalho para todos", continua. "Se até pouco tempo não convidavam os velhos porque eram ultrapassados, agora é porque não tem produção mesmo".
De fato, há três anos havia nove novelas gravadas no Brasil. Hoje, são exibidas sete produções nacionais, embora "Pérola Negra", do SBT, tenha sido gravada há dois anos e "Chiquititas", da mesma emissora, tenha elenco basicamente infantil. A Manchete está prestes a fechar as portas e a Bandeirantes, forçada pela desvalorização do real, cancelou uma série de 12 telefilmes que pretendia exibir após a novela "Meu Pé de Laranja Lima".
"Abrir o mercado é a prioridade", insiste Lia, que, em nome da Appite, pretende enviar uma carta à superintendente da TV Globo, Marluce Dias da Silva, pedindo para que a emissora transfira alguma de suas produções para São Paulo. O diretor artístico do SBT, Eduardo Lafon, confirma a falta de vagas para atores e concorda que a situação é mais difícil para os mais velhos. "Muitos me telefonam, mas não posso fazer nada", diz. "É uma vida difícil em que poucos se dão muito bem, alguns estão estáveis e a grande maioria fica catando trabalho". Ele adianta que, depois de "Pérola Negra", vai exibir "O Direito de Nascer", que também já está gravada e, em julho, começa a produzir nova novela.
Uma das maneiras de se encaixar numa produção é telefonar para o diretor e avisar que se está disponível, recurso que Yara Lins nunca utilizou. "Ao se oferecer, você se desvaloriza", acredita. "Não é orgulho, é atitude profissional". Yara mora sozinha num apartamento próprio de dois quartos em Perdizes, zona oeste de São Paulo. Houve tempo, ela conta, em que entre um e outro trabalho vendia os móveis de casa para sobreviver. Não vende mais, mas a aposentadoria de R$ 900 mal dá para o dia-a-dia. "Tenho pena dos atores deslumbrados que pensam que a fama dura para sempre", afirma. Diz que não tem saudades, que a vida é feita de momentos, mas não resiste e repete uma frase de Vittorio Gassman: "O ator deveria ter duas vidas, uma para ensaiar e outra para atuar". Viver de passado - A palavra aposentadoria não está associada à profissão de ator. "O ator na terceira idade refere-se frequentemente ao passado como se fosse ontem", analisa o psicanalista Fernando Alcântara de Assis, que há dois anos e meio trata dos 41 residentes da Casa dos Artistas, em Jacarepaguá, zona oeste do Rio. "Me fascina ver que a grande maioria desses artistas, diferentemente de outros profissionais, gostaria de morrer no palco", diz.
Para o psicanalista, o artista encara melhor a terceira idade do que outras pessoas. "O brilho do passado ainda vive muito forte dentro deles e ajuda a combater a depressão", diz. "Embora uma certa tristeza seja inevitável".
A vedete Nélia Paula, de 68 anos, mora há três anos na Casa dos Artistas. Estrela do teatro de revista, varrido de cena nos anos 60, atuou em "Chico City", na novela "Partido Alto"
fez participações na "Escolinha do Professor Raimundo" e teve seu grande momento no papel de Amparito Hernandez, em "Roque Santeiro". Morou sozinha num apartamento em Copacabana, durante 50 anos, mas, sem convites para trabalhar, teve de trocar o apartamento pela Casa dos Artistas.
"Não procuro ninguém e ninguém me procura", resume sua situação. É contratada da Globo, mas há tempos não atua na emissora. "Quero muito voltar a atuar, mas a preferência é por sangue novo". O salário da Globo somado a uma aposentadoria de dois salários mínimos são insuficientes para voltar a morar sozinha. "Aqui é muito silencioso; meu sofrimento é grande".
O silêncio contrasta com o tempo em que seus camarins viviam cheios de arranjos de antúrios e orquídeas mandados pelos fãs. Uma vez chegou a revelar: "Só não fui madame de sociedade porque não quis", disse. "Todo mundo sabia que um importante homem de negócios queria que eu largasse tudo para casar com ele
mas minha paixão era o trabalho".
Na crista da onda - Lima Duarte, no entanto, é exemplo de veterano que se manteve atuante ou "na crista da onda", expressão usada pelos pioneiros. Aos 70 anos, trabalhou em cerca de 30 novelas e diz que já viu tempos piores: entre 1979 e 80, com o fechamento da TV Tupi. "Naquela época, chegaram a me pagar com passagens da ponte aérea, que tive de vender na fila no aeroporto". O ator acha que o maior inimigo do veterano é a acomodação. "É preciso manter-se atualizado, assistir a espetáculos, ir ao cinema, estar a par dos acontecimentos, ler, estudar".
A rotina dentro dos estúdios mudou em quase 50 anos e o clima de grande família deu lugar a uma indústria de entretenimento eletrônico em que, na maioria das vezes, os atores nem se esbarram fora do set. "Existe muita vaidade, muitos gritos e cobrança e às vezes ficamos tristes por enfrentar tudo isso", desabafa o ator. Ele lembra que das 18 pessoas que estavam no estúdio quando Yara Lins apresentou o primeiro programa da TV brasileira, ele é o único homem vivo. "O tempo dói porque o ator tem consciência de que a glória ficou para trás", analisa. "Mas ele deve também ter consciência de sua eternidade".

mockup