Falando a mesma língua
Francelino França
De Londrina
A língua portuguesa é um elemento de unificação entre 200 milhões de falantes espalhados por todos os continentes. Esse número expressivo coloca o português numa posição significativa entre as línguas do mundo. Existem oito países que possuem o português como idioma oficial. Brasil e Moçambique estabeleceram uma ponte cultural graças à identidade idiomática e a similaridade entre as culturas tropicais. Há também traços indissolúveis de ancestralidade que permeiam as culturas brasileira e africana.
A embaixadora de Moçambique Felizarda Izaura Monteiro, presente em Londrina no XIV Ciclo Afro-Asiático, concedeu uma entrevista à Folha2 falando sobre os pontos de convergência entre as culturas moçambicana e brasileira.
Moçambique localizado no sudeste da África e com população de 18 milhões de habitantes conseguiu tardiamente a independência de Portugal, somente em 1975. Está em processo de reconstrução, depois do fim de uma guerra interna em 1992 que devastou o país. Vivendo um período de consolidação democrática, o país atravessou as primeiras eleições gerais em 1994. Ainda combalido pelos efeitos da guerra, os moçambicanos recebem donativos de organizações internacionais para garantir a sobrevivência.
Nesse processo, um dos elementos para a unificação de Moçambique é o idioma português, conforme explica a embaixadora. A língua portuguesa é a língua oficial, portanto é o idioma de unidade nacional. Por isso, encorajou-se sua aprendizagem, buscando sua preservação e difusão. Isso também é uma forma de estabelecer o desenvolvimento social e econômico. Esse processo de fortalecimento da língua portuguesa é denominado lusofonia, sendo também uma maneira de manter laços com os outros países que tiveram colonização lusitana.
A embaixadora explica que em Moçambique não se conhece as fronteiras idiomáticas com os países vizinhos, que predominantemente falam inglês. Nas escolas primárias, os professores dão aulas em português e os alunos falam em inglês fluente. Esse intercâmbio anglo-português tem suas razões, como elucida a embaixadora, sendo reflexo direto do número superior de bolsistas para escolas de origem inglesa e no estrangeiro.
Mesmo o país sendo violentado pela guerra, a cultura nativa não foi afetada, garante Felizarda. O teatro moçambicano está muito disseminado em todo país, mesmo de forma incipiente, em função do fechamento de inúmeros cinemas, sendo substituídos pelo teatro. Os temas dos espetáculos giram em torno do cotidiano e da cultura nativa do país.
Os pontos de aproximação entre as culturas de Moçambique e do Brasil, tendo como base o mesmo idioma, são literatura, música e novelas. Na literatura, Jorge Amado é escritor brasileiro mais badalado naquele país. A música popular brasileira é mais conhecida que o fado português. Nosso povo se identifica porque entende a mensagem. Roberto Carlos e os sambistas, como Martinho da Vila, são apreciados pela população. As camadas mais cultas apreciam Caetano (Veloso) e Vinícius (de Moraes), prossegue.
Uma das portas de entrada para a cultura brasileira em Moçambique foi a televisão, que apareceu naquele país em 1981. Como não poderia deixar de ser, as telenovelas também chegaram para ficar e influenciar os moçambicanos. O Bem-Amado e Roque Santeiro, ambas de Dias Gomes, tiveram ampla repercussão em todo país.
Debates públicos com intelectuais eram realizados, no intuito de avaliar a influência da novela na cultura regional. No vocabulário houve grandes influências. Mas vejo que isso é importante para enriquecer a língua portuguesa, continua.
Dentre os projetos da embaixadora Felizarda Izaura Monteiro, há 11 meses no Brasil, será priorizado o intercâmbio na área de educação. Há pelo menos 70 estudantes moçambicanos estudando no Brasil. Dois deles estudam na Universidade Estadual de Londrina, nos cursos de Engenharia Civil e Administração. Na área econômica, a intenção da embaixadora é intercambiar com empresários brasileiros novas tecnologias, pois existem vários fatores em comum nessa área entre os dois países.
Para o próximo ano, imagens moçambicanas e o riquíssimo artesanato farão parte de uma exposição dos países afro-asiáticos que acontecerá em Londrina, como promoção do Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos da UEL. Com a intensificação do intercâmbio, expoentes culturais moçambicanos como o artista plástico Valente Malangatana e o romancista Mia Couto podem se tornar mais conhecidos em terras brasileiras.





