Falabella prepara musical sobre a estrela
Rio, 03 (AE) - Depois de contar a história de Linda e Dircinha Batista no musical "Somos Irmãs", a produtora Cíntia Graber trabalha atualmente na montagem de um novo musical, desta vez sobre a Pequena Notável. O espetáculo, com texto de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa e direção dele, está em fase de captação de recursos. "Se tudo der certo, estreamos no fim do ano ou no início de 2000", promete Cíntia.
Ainda sem título, o musical não é o único evento a lembrar Carmem Miranda, cujos 90 anos de nascimento foram comemorados em fevereiro. A Editora Vitale, administradora dos direitos autorais de vários compositores que fizeram música para ela, lança até o fim do ano um songbook com suas canções mais conhecidas, com coordenação de Eduardo Dusek. Desde março, ele apresenta "Adeus Batucada", show biográfico com o repertório dela. Além disso, o Museu Carmem Miranda promove duas exposições temáticas. A atual reúne objetos pessoais de Carmem e, a partir de setembro, será montada outra sobre sua relação com o Bando da Lua.
O projeto de Carmem Miranda foi decorrência natural do sucesso de "Somos Irmãs", que Cíntia atribui ao fato de os brasileiros estarem ansiosos por conhecer ou lembrar seu passado. De início, Ney Matogrosso e Cininha de Paula iam repetir a dose na direção, mas com o convite para Falabella escrever o texto, ele assumiu a responsabilidade de contar a história. Em teatro é a segunda tentativa. Nos anos 70, Marília Pera protagonizou "A Pequena Notável", outro musical com grande sucesso de público e muitas críticas da esquerda que, na época, considerava Carmem uma brasileira vendida ao imperialismo americano.
Miguel Falabella vem trabalhando na peça desde o início do ano, ao lado de Maria Carmem Barbosa, sua parceira em sucessos como "Louro Alto Solteiro Procura", "A Pequena Mártir de Cristo" e "O Submarino". No entanto, este é o primeiro musical dos dois (eles já dirigiram shows de cantores) que será uma produção robusta, com 12 atores no palco e música ao vivo, mas "nada parecido com Broadway", esclarece Falabella. Para escrever o texto ele vem lendo tudo que lhe cai nas mãos sobre a Brazilian bombshell, assistindo a seus filmes e ouvindo o que há disponível no mercado fonográfico.
"Maria Carmem e eu temos um método particular de trabalhar que consiste em pesquisar, escrever um pouco, deixar o texto descansando e depois voltar de novo a ele", diz Falabella. "Para quem está de fora pode parecer demorado, mas dá certo". Ele nunca tinha feito nada a respeito da nossa artista mais bem-sucedida nos Estados Unidos, mas sempre foi fã e acha que os contemporâneos da cantora não lhe fizeram justiça por puro preconceito. "Havia aqueles que a tachavam de cafona, pois até hoje há quem negue nosso lado banana, e os que diziam ter sido ela aceita nos Estados Unidos por causa da política de boa vizinhança predominante pouco antes e durante a 2.ª Guerra Mundial", comenta Falabella.
"Mas a própria Carmem lembrava que, entre centenas de cantoras latinas, ela foi a única a fazer tanto sucesso que, em determinado momento, era o maior cachê do cinema americano". Carmem será representada por duas atrizes, uma mais madura vivendo o período em que, já consagrada, dialoga com a menina portuguesa que chegou ao Brasil, buscou e chegou ao sucesso, adianta o ator-diretor-autor, que pretende atuar só nos bastidores. Falabella já tem na cabeça alguns nomes para os dois papéis, mas espera a produção estar mais amarrada para falar em elenco. Desde já, é certo que os 12 atores precisarão dançar e cantar bem.
Para Falabella, o principal é trazer o mito e a mulher que foi Carmem Miranda para os dias de hoje. "Quero provocar uma discussão sobre o Brasil, esse país que não gosta de si mesmo, mas foi subvertido por ela". Falabella acredita que, mesmo antes de fazer sucesso nos Estados Unidos, a cantora obrigou os brasileiros a se verem sem o verniz de sofisticação. "Foi um sentimento que depois desembocou na Tropicália, causado por ela, que nunca parou para pensar no que fazia ou para programar-se".
A captação de patrocínio é que vai determinar o tamanho do espetáculo e os recursos a serem usados em cena. Falabella não adianta detalhes, mas não abre mão de música tocada ao vivo. "Estou tão acostumado a trabalhar com pouco ou nenhum patrocínio e a resolver essas questões com criatividade, que me espanto com o orçamento de alguns espetáculos". Em "A Partilha", por exemplo, ele tinha R$ 30 mil e soluções cênicas consideradas geniais não passaram de um drible na falta de dinheiro. Foi o caso do sofá usado no cenário da sala das quatro irmãs que virava um caixão. "Todo mundo achou que era um subtexto, mas na verdade faltou dinheiro para ter os dois objetos em cena", conta o diretor. "Mas é claro que eu prefiro trabalhar com tranquilidade e não ter limites desse tipo". (B.C.S.)





