A editora Globo lança hoje, no primeiro dia do
Salão Internacional do Livro de São Paulo, uma coletânea de 14 entrevistas feitas ao longo de 12 anos (1963-1975) com o escritor Érico Veríssimo: ‘‘A Liberdade de Escrever - Entrevistas sobre Literatura e Política’’. O volume, com 210 páginas e que será comercializado a R$ 17,50, foi publicado com a intenção de ‘‘desagravar a memória de Érico Veríssimo’’, segundo Maria da Glória Bordini, curadora do Acervo Literário Érico Veríssimo (Alev, mantido pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul).
Bordini conta que, há alguns anos, Veríssimo foi chamado de politicamente omisso por um jornalista gaúcho. Em repúdio, o então prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro, promoveu um ato público em homenagem ao escritor, do qual surgiu a idéia da publicação.
No ano passado, a PUC organizou uma pequena edição das entrevistas para um lançamento restrito a Porto Alegre; a nova edição difere da primeira tiragem porque mostra uma faceta pouco conhecida de Veríssimo: a de desenhista.
O volume traz fac-símiles de desenhos que o escritor fazia como preparação para escrever seus livros: lá estão personagens antológicos, como Floriano Cambará, de ‘‘O Tempo e o Vento’’, retratos de Luís Fernando e Clarissa (filhos de Érico), estudos de capas.
Não bastasse trazer a público a defesa de um Érico Veríssimo engajado sim, mas não partidário - como gostava de frisar - e revelar uma vocação que não se concretizou, mas permeou a carreira do escritor, o livro tem outra característica interessante: permite observar a própria entrevista como gênero literário.
Em várias ocasiões, o entrevistador coloca suas impressões pessoais em meio às perguntas e respostas, dando o ‘‘clima’’ da entrevista. Este recurso está ligado a uma corrente iniciada nos anos 60, chamada ‘‘new journalism’’ (novo jornalismo), em que os textos de periódicos buscavam uma aproximação com a literatura.
Entre os textos que trazem esta marca, destaca-se a entrevista concedida ao dramaturgo Jorge Andrade, para a revista Realidade, em 1972, na qual Veríssimo fala de um assunto doloroso: a relação com o pai, que o escritor viu pela última vez em 1930, indo embora em um trem para São Paulo.
Alguns textos são, ainda, conversas com amigos, que fazem as vezes de entrevistadores - é o caso de Clarice Lispector, por exemplo. Clarice coloca suas próprias impressões e fala de seu processo criativo enquanto entrevista Érico, que se desculpa repetidas vezes por não ser ‘‘profundo’’, revelando uma modéstia que ressurge de tanto em tanto ao longo do volume.
Muitos assuntos são recorrentes nas entrevistas reunidas em ‘‘A Liberdade...’’. Para Maria da Glória Bordini, não fosse somente o fato de o livro ter sido organizado buscando um viés determinado, havia também a repressão do período, que limitava os temas das perguntas e respostas.
São frequentes no livro, além de colocações contra a censura prévia - a qual Veríssimo nunca submeteu nenhum escrito - explicações para a ‘‘superficialidade’’ dos primeiros romances (‘‘só podia escrever (...) nas tardes de sábado, pois tinha de ganhar a vida em outras atividades’’, se defende o escritor) e declarações de amor à família.
No ano em que ‘‘O Continente’’ (primeiro volume de ‘‘O Tempo e o Vento’’, a saga gaúcha de Veríssimo) celebra seu cinquentenário sem preparativos especiais, ‘‘A Liberdade de Escrever’’ faz as vezes de homenagem ao seu autor.
Érico Veríssimo nasceu em Cruz Alta (RS), em 17 de dezembro de 1905, filho de Sebastião Veríssimo da Fonseca e Abegahy Lopes Veríssimo. Antes de se tornar um dos escritores mais populares da literatura brasileira contemporânea, Érico teve vários empregos. Trabalhando em uma farmácia, escreveu seu primeiro livro -‘‘Fantoches’’, de 1932 - já em Porto Alegre, para onde havia se mudado em 1930.
Casado com Mafalda Halfen Volpe desde 1931, Érico teve dois filhos: o também escritor Luís Fernando Veríssimo e Clarissa. Érico Veríssimo morreu de infarto em 28 de novembro de 1975, deixando memórias inacabadas.
•O Salão Internacional do Livro de São Paulo prossegue até dia 2 de maio, na Expo Center Norte -pavilhões verde, vermelho e azul (Rua Dr. José
Bernardo Pinto, 333, região norte. Telefone: 011/6959-2333). A abertura ao público acontece a partir do dia 24. das 10 às 22h. Ingressos a R$ 5,00 (estudantes, R$ 2,50, menores de 10 e maiores de 65 anos não pagam)

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