Do alto da experiência que lhe permite decorar textos momentos antes de entrar em cena e dono de um prestígio que o faz estar no teatro, na TV e com papéis de peso assegurados para o futuro, Antônio Fagundes, 60 anos, está pronto para colocar um novo mandachuva em sua lista de personagens. Depois de dar vida ao dono do mundo, ao rei do gado e ao chefe da favela Portelinha, o ator interpreta Leal, o homem por trás do edifício Titã, palco das aventuras, disputas e romances de ''Tempos Modernos'', a nova novela das 7 da Rede Globo.
''Ele é um ex-mestre de obras que é dono de um império. Então, Leal traz uma contradição dentro dele'', descreve Fagundes. A tal contradição dá ao proprietário do Titã uma personalidade que combina gostos populares e excentricidade: no meio de sua sala de estar, por exemplo, há um Aero Willis, seu primeiro carro. ''Mas o que acho interessante é que ele tem valores éticos rígidos. Há uma lenda de que ele jamais deu uma propina na vida. Essa riqueza é justa, honesta e fruto do trabalho'', detalha o artista, que emenda: ''Só de ter um personagem assim é revolucionário''.
Numa rara aparição fora do horário nobre da Globo - faixa que ele voltará a ocupar na próxima novela escrita por Gilberto Braga - o seletivo Fagundes diz que o texto de Bosco Brasil, oriundo do teatro e estreante no mundo dos folhetins, foi uma das razões que o atraiu para o trabalho. Sobre voltar a fazer uma novela das 7, coisa que ele não topava desde ''A Viagem'' (1994), Fagundes só vê aspectos positivos. ''Muda um pouquinho porque é menor, e isso já é bem gostoso. É um trabalho mais suave de se fazer'', diz ele, que vai se revezar entre as gravações e a peça Restos, que estreou recentemente no Rio. Assim que a novela acabar, o ator deve se dedicar integralmente às filmagens do longa ''Roque Santeiro'', no qual interpretará Sinhozinho Malta, papel imortalizado por Lima Duarte. Fagundes diz que fará algo diferente. ''Nem vi na época, então não tem como imitar.''
Mesmo sendo o homem mais poderoso de ''Tempos Modernos'', Leal está cercado de problemas. Pai de três meninas, ele tem predileção por Nelinha (Fernanda Vasconcellos), o que não o impedirá de viver em pé de guerra com ela. ''A filha que ele mais gosta apronta barbaridades. Já as outras querem o império dele, é uma relação de interesse. Tem um pouco de Rei Lear (de Shakespeare) na história'', conta o ator. Vivianne Pasmanter e Regiane Alves integram a ala interesseira da família.
Do lado de fora de sua confortável cobertura, Leal terá de conviver com as ameaças de Albano (Guilherme Weber) e da amante deste, a ardilosa Deodora (Grazi Massafera). O casal tem como meta de vida se apossar de todas as riquezas do empreendedor, que está prestes a construir mais um arranha-céu em São Paulo. Uma paixão misteriosa e arrebatadora por Hélia (Eliane Giardini) também movimentará a vida do protagonista. ''Vai rolar um triângulo amoroso com o personagem de Marcos Caruso'', adianta Fagundes. Na história, Caruso vive Otto Niemann, um gênio da arquitetura moderna.
No meio de toda essa confusão, Frank, um computador superinteligente, comanda o Titã e faz até o papel de confidente de Leal. ''Essa é mais uma contradição do meu personagem. Ele vem de origem humilde e teoricamente não era para estar perto de uma modernidade dessas. Mas foi ele quem aceitou construir um prédio em que tudo é computadorizado.'' Presente em todos os cantos do edifício, Frank vai interferir na vida de todos que passarem pelo imóvel.
''O Bosco vai brincar com essa coisa da invasão da privacidade'', conta Fagundes, que confessa não gostar da onda tecnológica. ''Sou 'analfabyte'. Não curto mexer com essas máquinas. Até porque tenho muito livro para ler ainda, e o computador é o avesso do livro'', diz. ''Ou você fica três horas limpando e-mail ou você lê. Eu prefiro ler.''

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