Roberto Jansen
Agência Estado
Os herdeiros de Cecília Meireles (1901-1964) não autorizaram a gravadora portuguesa Valentim de Carvalho a lançar um CD duplo de Amália Rodrigues, que morreu na última quarta-feira, cantando obras da poeta brasileira. Motivo: os portugueses nunca pagaram os direitos autorais referentes a dois poemas de Cecília que fazem parte de um outro disco de Amália, lançado em 1969, e não se dispuseram a pagar pela edição das 24 poesias que fariam parte do álbum duplo.
‘‘Eles me pediram apenas a autorização, mas nunca fizeram uma proposta’’, afirmou o advogado da família, Roberto Halbouti. ‘‘Diante do fato de que nunca pagaram os direitos autorais do outro disco, não vou autorizar sem que haja antes um acordo’’.
Segundo Halbouti, em 1969 a gravadora EMI lançou em Portugal o disco ‘‘Amália, Com Que Voz’’, em que Amália Rodrigues cantava diversas poesias musicadas, entre elas ‘‘Naufrágio’’ e ‘‘As Mãos Que Trago’’, de Cecília Meireles. O trabalho teria, inclusive, ganhado o prêmio de melhor disco do Festival da Bélgica, no ano de seu lançamento.
‘‘Nunca nos pediram autorização para usar as poesias e só tivemos conhecimento disso em 1985’’, contou o advogado. Desde então, os herdeiros tentam receber os direitos autorais referentes aos dois poemas. ‘‘Mas jamais nos mandaram sequer o relatório de vendas desse disco’’. Halbouti contou que em 1990 esteve em Portugal para uma reunião com os executivos da gravadora. Nessa ocasião, foi pedida ao advogado autorização para o lançamento do CD duplo com 24 poemas da brasileira.
‘‘Não autorizei porque nunca pagaram nada’’, explicou. ‘‘Acho isso uma afronta; me parece que os portugueses não sabem quem é Cecília Meireles’’. O advogado garantiu, no entanto, estar disposto a negociar com a gravadora portuguesa para o lançamento póstumo do álbum duplo. ‘‘Não existe interesse em criar problemas’’, disse Halbouti. ‘‘Mas queremos que a questão seja tratada da forma que merece’’.

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