Guinga fala em entrevista de sua opção por fugir da música mercadológica
Compositor, instrumentista e cantor com mais de 30 anos de carreira, Guinga está contente com o resultado de ‘‘Suíte Leopoldina’’, na verdade um conjunto de obras para violão que se expandiu ao canto e preencheu um CD. Enquanto ganha reconhecimento como compositor, Guinga mantém a coerência: não cede terreno para interesses que não sejam musicais. Para o carioca, não há sentido fazer música para vender. Por telefone, Guinga conversou com a Folha2:
Como é que você chegou a essa mistura de estilos que caracterizam sua música?
Eu faço a música que meu coração manda, com subsídios do que aprendi escutando e tocando violão. Quando estou compondo procuro algo que me sensibiliza. Para compor, preciso estar com o violão.
Como surgiu o ‘‘Suíte Leopoldina’’?
O nome veio de uma suíte que fiz para o violão com quatro choros, uma valsa e um samba. Nesta obra homenageio meu pai, minha mãe, amigos e vários personagens da Leopoldina, no Rio de Janeiro. Mas descobri que o disco era mais que isso, e achei que deveria dar um formato que se tornou uma extensão de uma parte da minha vida.
O resultado é o esperado?
Achei que ficou maravilhoso, tenho muito orgulho. Gosto muito dos meus últimos três discos. A gravadora me dá liberdade, e eu só gravaria desta maneira.
Ou seja, não há nenhuma tendência comercial...
Eu passei a minha vida toda tentando fazer a música a que me proponho. Eu adoraria se meu disco vendesse. Mas eu faço assim porque é assim que sei fazer e não abro concessões.
É verdade que Candeia te mostrou Dave Brubeck?
Essa informação está um pouco embolada. Eu ia muito à casa do Candeia. Fiquei impressionado porque vi que ele tinha um disco do Dave Brubeck. Um sambista de raiz como ele, batalhador da cultura brasileira... Isso mostra que o mundo é pequeno e temos que estar com a janela aberta para as coisas.
Vemos sambistas como Walter Alfaiate e Wilson das Neves lançando discos em pleno reinado do pagode brega. Dá para dizer que é uma resposta do samba de raiz?
Às vezes o próprio artista administra sua carreira desta forma. Wilson sempre foi baterista e não mostrava seus sambas para ninguém. De repente lançou. Se eu demorei para aparecer como compositor, um pouco é culpa minha, que fiquei no consultório. Quando parti para os palcos, encontrei quem abrisse as portas. Mas conheci muitos diretores artísticos preocupados com números, que nem pensam na música. Querem um produto para vender, produzir para ganhar e não estão nem aí para a qualidade. Isso existe muito, como também existem aqueles que estão preocupados com a arte. Agora, o artista pode ser culpado também. Eu penso em ter a família com saúde e pego o violão para compor. Tendo isso, o resto acontece.

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