Até o dia 25, o Museu Alfredo Andersen, em Curitiba, abriga dez obras do artista plástico carioca José Bechara, que caracteriza sua arte trabalhando com lonas usadas de caminhões. Há quatro anos ele esteve no Museu Metropolitano de Arte, dividindo o espaço com outro colega. A individual que acontece agora, embora utilize-se do mesmo material, sofreu mudanças radicais, avisa.
Aquilo que antes era percebido quase ao acaso, ganhou força nesta fase - a organização do espaço informal, contrapondo-se aos acontecimentos visuais de rigor formal. Em 1994 as intervenções que fazia eram ainda tímidas, hoje são mais diretas, precisas.
DivulgaçãoBechara junto a uma de suas obrasPara o Museu Alfredo Andersen, Bechara trouxe obras pertencentes a uma série iniciada ano passado. Esses trabalhos apresentam diversas questões, como o jogo entre a ocasionalidade e a intencionalidade, segundo comenta o autor. Ou seja, ele atua sobre o processo da oxidação para dar uma nova estética.
‘‘Hoje as linhas verticais e horizontais se relacionam com esse plano de maneira mais rigorosa. Consigo controlar tons da mesma ferrugem; tem oxidações avermelhadas, esverdeadas e até pretas, embora de forma sutil’’, explica o artista.
Ele comenta que sua proposta é criar ‘‘experiências visuais’’ que contribuam para um ‘‘esgarçamento’’ da experiência pictórica. ‘‘Existe uma poética e um conjunto de materiais que continuam me interessando.’’ A própria inquietude levou-o a montar a exposição ‘‘Comendo Margaridas’’, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, cujos trabalhos são monumentais. Medem 4 x 5 metros.
Embora sua relação com a obra seja formalista, Bechara mantém-se aberto às questões metafóricas que, bem ou mal, ‘‘acredito flutuarem em todo o trabalho’’. Explica-se: o uso constante das lonas altera sua plástica, fazendo com que, visualmente, transmitam ao espectador leituras diversas sobre a vida. ‘‘Ali se concentram idéias de tempo, memória, isolamento, abandono, solidão, morte, silêncio, espera. Sobretudo a espera’’, comenta o artista.
José Bechara quer para sua obra o mistério e não a explicitude dos pensamentos. ‘‘O que desejo é que ela tenha um mistério em torno, uma pergunta permanente’’, afirma. A sua produção não está ali por mero acaso, nem carrega a superficialidade. É o resultado de viagens interiores, por lugares desconhecidos ao próprio pintor.
‘‘Não faço trabalho para o público, faço o meu trabalho’’, continua. Suas criações são, portanto, verdadeiras confissões. Elas cumprem seu destino à medida que são apreciadas pelos visitantes, e se as pessoas carregam alguma coisa daquilo que viram, é uma contribuição que existe de lado a lado. Porque também o pintor se impregna do que ouve e vê no cotidiano. Mesmo nas entrevistas que concede, pode surgir elementos para sua arte: ‘‘Sempre que falo pela primeira vez de um determinado assunto é comovente’’, finaliza.
• Exposição de José Bechara - No Museu Alfredo Andersen, Rua Mateus Leme, 336, telefone 222-8262. Visitação pública de segunda a sexta-feira, das 9 às 18 horas, sábado das 10 às 16 horas. Até dia 25.

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