Todo mundo já ouviu falar em pirata, pirataria. Quem nunca comprou um CD pirata? Um óculos escuros de camelô? Ou pagou sem receber nota pela mercadoria? Ou usou roupas com etiqueta falsificada? Pois é. E aqueles velhos piratas da história? A esquadra inglesa contra os piratas no meio do oceano. Capitão Gancho saqueando navios. E os piratas da internet, a rede mundial de computadores, chamados ''hackers''? Vez em quando aparece um vírus novo. Ou se ouve a notícia de que um sistema de segurança de alguma empresa ou país foi rompido. Sim, os piratas. Estão interessados no tesouro do reino. E o reino interessado nos tesouros da terra, para manter sob seu controle a ordem e principalmente o poder do rei. Hoje em dia, os mais ameaçadores são atendidos pelo nome de ''terroristas''. E cada vez mais a definição desses maus elementos se amplia: há Peter Pan infiltrado à paisana até na mente de muitos homens locais só para detectar possíveis capitães Ganchos ao redor. Com pozinho de pirlimpimpim ajudam a encher o navio oficial de riquezas da terra que serão levadas mar afora.
A figura do rei e do pirata, nesta fábula, se confundem. Ambos pertencem ao reino da ameaça terrorista. Um, em nome do antiterrorismo, praticando seus terrores. Outro, por qualquer brilho que possa ser chamado de ouro, religião, drogas, tráfico, etc.
É preciso sobreviver, dizem as más consciências já infectadas pelos agentes das duas facções. E para sobreviver é preciso se enquadrar. Existe até manual de regras de conduta e critérios a seguir para não se tornar mais um suspeito perigoso. O problema é que latino-americanos e árabes já nascem incluídos na lista negra.
Mas ao mesmo tempo em que essas forças se digladiam entre si, como opostos complementares, surge em meio ao horror por onde capital e mercadoria circulam, uma espécie de massa cinzenta amorfa e viscosa capaz de se manifestar pelas entranhas das esferas de controle e repressão, que já não mais pode ser contida. Desta região se detecta algo não previsto pelos idealizadores desta fábula mortal, que acaba por fazer circular idéias, sêmem, sonhos, sangue e ações coletivas que a cada dia mais se expandem por todas as direções que se pensava já dominadas.
Não se trata mais de ser ''herói ou marginal'' como dissera Hélio Oiticica na década de 60, mas de ir além desta proposição. Agora de forma aberta, impessoal e transitória. Não mais obras, objetos, mercadorias, mas sistemas em rede, processos, fluxos, continuidade. A figura do gênio, do salvador, suplantada pelo esforço coletivo de resistência, luta e consciência. A da autoria, pela sucessão de colagens, herança modernista.
O receptor da mensagem agora não é mais aquele consumidor passível e o ponto final de um sistema de vendas de mercadoria e fetiche. Ele é também um criador de interpretações e fonte de novas informações em circulação, que são transformadas e reinterpretadas ad infinitum.
É preciso parar de comercializar com a morte, pois de lá não há caminho que retorne. E entender que nem sempre os personagens das fábulas, por serem inimigos, lutam em lados opostos.
As opinões e informações emitidas neste espaço são de responsabilidade do colunista.

mockup