Fábula não subestima inteligência de público
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sábado, 17 de maio de 2014
Geraldo Bessa<br>TV Press 
Meu Pedacinho de Chão" renderia uma ótima minissérie. Com estrutura narrativa rica, elenco afinado e estética arrojada, o "remake" da novela exibida, originalmente, em 1971 parece perdido na faixa das 18 horas. Há cerca de um mês no ar, apenas o espectador mais atento consegue perceber a joia que é a produção. Mesmo sem mexer muito no que fez no passado, Benedito Ruy Barbosa entrega um texto cheio de vigor. A cada capítulo subverte a lógica tradicional de repetição dos folhetins. E não subestima a inteligência de seu público. Com longas cenas, muitas vezes quase sem falas, o autor deixa nas entrelinhas e no silêncio um mar de possibilidades, onde é possível captar claramente o contexto político no qual a trama está imersa.
Para as crianças que por ventura passarem pela Globo e derem de cara com a professora Juliana, de Bruna Linzmeyer, a novela é um deleite em imagens e estranhamento. Aos adultos, além da força do texto, é possível presenciar um momento de inspiração do diretor Luiz Fernando Carvalho. Aglutinando referências visuais e sonoras, a impressão que se tem é que a direção conseguiu fazer com que um produto comercial como a telenovela perca o ar industrial. Assim como em "Renascer", de 1993, a cada capítulo, "Meu Pedacinho de Chão" parece ser feita à mão. Acelerando, desfocando, abusando de sombras, cores e cortes, Luiz Fernando desenvolve uma novela profunda e sem intenções mastigadas ao público.
Boa parte do resultado geral da obra é fruto de um intenso trabalho com os atores. É difícil apontar destaques em uma produção onde até nomes que sempre entregam atuações óbvias, casos de Juliana Paes e Rodrigo Lombardi, conseguem sair da zona de conforto. Juliana, inclusive, cresce muito ao contracenar com Osmar Prado. Conhecido pela construção pontual de seus personagens, Osmar segura ao lado da atriz as cenas mais densas do folhetim. Com a iminente separação de Catarina e do Coronel Epa, a dupla sustentou uma bela e emotiva sequência de quase 10 minutos tudo ao som da tristonha "How It Ends", do grupo de rock alternativo DeVotchKa , recurso tido como obsoleto em tempos de tramas que focam na ação. Bom ator sempre limitado a papéis secundários, Flávio Bauraqui vive seu melhor momento na televisão na pele do divertido Rodapé. Entre caras e bocas, o intérprete faz do exagerado personagem um elo entre todos os arquétipos da produção.
"Meu Pedacinho de Chão", definitivamente, não foi formatada para as massas e nem terá a audiência esperada pela Globo para o horário das seis em torno dos 30 pontos. Em compensação, ao desconstruir fórmulas e experimentar outros rumos de atuação, pode ser essencial para uma já necessária renovação da teledramaturgia.


