''Eu levei bomba quando tava com 12 anos por causa que tive um neném do meu pai. (...) Minha filha tem Sindro de Dao. É retardada.''
Desde a abertura, a narradora de ''Preciosa'', livro no qual se baseou o filme homônimo, um dos cotados ao Oscar, revela-se sofrida e iletrada - o texto reproduz sua fala, uma fala repleta de erros.
O estilo se adéqua ao peso da história: Claireece Precious Jones, a tal Preciosa, é enorme de gorda, negra, analfabeta, vive com a mãe (que lhe espanca e abusa sexualmente dela) no Harlem nova-iorquino e, aos 16 anos, espera o segundo filho, também de um estupro do pai.
De tão atormentada, a trama soa como ficção. Mas é (quase) tudo verdade, conta a autora do livro, a poeta performática Sapphire (Safira), nome artístico de Ramona Lofton.
''Eu dava aulas no Bronx, o bairro mais pobre de Nova York, meus alunos eram na maioria negros e latinos. Uma delas contou que tinha uma filha retardada, que nascera quando ela tinha 12 anos e era filha do próprio pai. Outra era espancada pela mãe'', disse Sapphire.
Entretanto, como se numa fábula underground, surgem os anjos de Preciosa: o enfermeiro que lhe ajuda no parto, a professora da escola especial, a assistente social do abrigo...
Então Sapphire, poeta marginal, acredita em anjos? ''Sim. Preciosa começa precisando de anjos, mas, quando se levanta, ela é o anjo.''
O caminho desde o chão é duro, e, como parábola do papel das letras para a vida, a escrita é o elevador. Talvez aí esteja o pulo do gato do romance, o que o diferencia de um mero conto de fadas urbano: acompanhamos a alfabetização da garota, paralela à sua redenção.
''Ver as pessoas aprendendo a usar a língua é como ver um bebê começando a caminhar, um cego de repente enxergando'', compara Sapphire.
O filme estourou no festival de Sundance e acumula aplausos. A atriz do filme, Mo'Nique Shines levou o Globo de Ouro de Melhor Coadjuvante. O livro (''Push'', no título original), de 1996, está há 20 semanas na lista de mais vendidos do ''New York Times''.
De família pobre, ex-dançarina noturna, ativista de círculos negros, gays e feministas, Sapphire se viu de súbito num universo ''red carpet'' que nunca foi seu - o ''NYT'' escreveu que ela sofreu abusos na infância, o que ela se nega a comentar. ''Outro dia uma repórter perguntou quem desenhara o meu vestido, e eu disse que tinha comprado numa loja de departamento'', conta.
A mesma alegria que demonstra ao falar de Barack Obama. ''É o primeiro a se preocupar com saúde e educação. Não fará milagre, mas começa a reparar os erros de Bush. E o fato de estar lá já muda uma cultura.''

SERVIÇO
■ Preciosa
Autora - Sapphire
Tradução - Alves Calado
Editora - Record
Quanto - R$ 29,90 (192 págs.)

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