Fábio Jr. tem razão quando diz que sedução não tem nada a ver com a idade. Prova disso é que o ator e cantor de 44 anos é o mais importante reforço da Globo na tentativa de recuperar a audiência no horário das sete. Isso sem falar que ‘‘Corpo Dourado’’, novela de Antônio Calmon, estréia em pleno horário de verão, quando o ibope das emissoras tende a cair. Escalado às pressas para incorporar mais um tipo galante e sedutor à sua galeria, Fábio dá vida a Billy, um fotógrafo misterioso que chega ao balneário de Praia dos Amores e, no mesmo dia, testemunha o assassinato de um casal, interpretado por Lima Duarte e Adriana Garambone. ‘‘Ele é tão misterioso que a única coisa que sei é que chega à cidade para fazer não sei o quê a mando de não sei quem’’, diverte-se o ator.
Com estréia prevista para o dia 12, ‘‘Corpo Dourado’’ marca o retorno de Fábio Jr. à Globo, após um afastamento de cinco anos. A última novela na emissora foi ‘‘Pedra sobre Pedra’’, em que interpretou o também fotógrafo Jorge Tadeu. Na esperança de evitar comparações, Fábio ainda tentou convencer Antônio Calmon a mudar a profissão do personagem. Em vão. Segundo o autor, a fotografia ajuda a criar situações para que o enigmático personagem bisbilhote a vida alheia. ‘‘Vai ficar parecendo ‘Jorge Tadeu 2 - A Missão’. Mas, tudo bem. O Jorge Tadeu foi tão legal de fazer...’’, resigna-se, bem-humorado.
Fábio Jr. tem motivos de sobra para estar feliz. Refeito do fracasso de ‘‘Antônio Alves, Taxista’’, novela co-produzida entre o SBT e a Ronda Studios, da Argentina, está satisfeito por estar de volta à Globo, 20 anos depois de estrear na emissora em ‘‘Nina’’, de Walter George Durst. Fábio assinou contrato até dezembro de 98 com a emissora, mas já adiantou que não pretende abrir mão de continuar fazendo shows nos fins de semana. Afinal, o álbum ‘‘Só Voc꒒, gravado ao vivo durante a turnê ‘‘Obrigado’’, já vendeu 550 mil cópias. Um recorde na carreira de Fábio Jr. ‘‘A novela ainda nem foi ao ar e já bati meu próprio recorde. Nunca vendi tanto em tão pouco tempo’’, comemora.
A Globo está apostando em você como o grande trunfo para recuperar a audiência no horário das sete. Isso amedronta?
Fábio Júnior - Não estou preocupado com isso. Vou lá, faço meu trabalho e depois volto pra casa. Não fico pensando: ‘‘Oh, meu Deus! Se não der ibope, a culpa será minha...’’. Nem penso nisso. Se pensar, enlouqueço. É a mesma coisa que entrar no estúdio e querer que o próximo disco venda tanto quanto o anterior. Se não vender, o que vou fazer? Vou ter um troço? No caso de ‘‘Corpo Dourado’’, gostei do personagem e vou lá fazer a minha parte da melhor maneira possível. O resto não compete a mim. Não quero nem saber. Só torço para que a novela seja um grande sucesso...
Em 30 anos de carreira, você só atuou em sete novelas. Ser bissexto é uma decisão sua?
Fábio Júnior - Não planejo nada do que acontece comigo. Agora mesmo estava no Rio para divulgar meu novo álbum e recebi um telefonema do Boni. Somos muito amigos. Ele me ligou dizendo: ‘‘E aí, véio? Tenho uma proposta para você. Que tal?’’ Aí, eu pensei logo: ‘‘Vem novela por aí...’’. No dia seguinte, saí de lá com a papelada toda assinada. Já cansei de fechar contrato por telefone. Depois é que eu lembrava de assinar contrato, negociar grana, essa coisa toda... Nunca tive muito problema em relação a isso.
Você tem fama de recusar muitos convites...
Fábio Júnior - Nem tanto. A última que não topei fazer foi ‘‘A Indomada’’. Tenho uma carreira musical que me obriga a não aceitar alguns trabalhos... O que gosto mesmo é de estar no palco. É ali que me sinto em casa. Aceitar ou não esses convites depende da minha agenda de shows. Se estou na estrada, fica difícil de conciliar. E tem outra coisa: o personagem tem de ser legal. Tem de ser algo que me dê tesão para fazer. Não quero fazer nada por fazer. Só para manter a cara na televisão, não quero. Se não tenho nada a dizer, prefiro ficar calado...
O que o levou a aceitar o papel de Billy, em ‘‘Corpo Dourado?’’
Fábio Júnior - O Billy é um cara muito misterioso. Isso até onde eu sei, porque o Calmon ficou de fazer algumas modificações no personagem. Mas ele é um fotógrafo tão misterioso que a única coisa que sei é que chega ao balneário de Praia dos Amores para fazer não sei o quê a mando de não sei quem. O que me interessou mesmo é que o Boni tinha duas propostas: ou assumir ‘‘Corpo Dourado’’ de cabo a rabo ou fazer uma participação de 30 capítulos numa novela ainda não definida. Já que é para voltar à Globo, deixa eu fazer o negócio direito. Para fazer novela pela metade, prefiro não fazer...
Você teme comparações entre o Billy e o Jorge Tadeu, de ‘‘Pedra sobre Pedra?’’
Fábio Júnior - Eu comentei isso com o Calmon e disse: ‘‘Neguinho vai pegar no meu pé...’’. Até perguntei se não dava para tirar esse negócio de fotografia da história. Será que ele vai ter de andar com o equipamento para cima e para baixo o tempo todo? Mas o Calmon explicou que a história estava toda calcada em cima disso. Além de testemunhar o assassinato, meu personagem precisava também fotografar o assassino... O Calmon precisa da foto do assassino para desenvolver a história. Por mim, tudo bem. Se os caras vierem me encher o saco, mando eles falarem com o Calmon... Será que vai ficar parecendo ‘Jorge Tadeu 2 - A Missão?’ Se ficar, tudo bem. O Jorge Tadeu foi tão legal de fazer...
Você fez algum outro pedido ao Antônio Calmon?
Fábio Júnior - Não, só brinquei mesmo com esse negócio de fotografia. Na verdade, nem conhecia o Calmon. Nunca falei com autor nenhum antes. Não gosto desse negócio de ficar telefonando para a casa deles. Já imaginou o que tem de gente enchendo o saco de autor de novela? Eu odeio esse troço de ficar reclamando de personagem. Pode até ser que eles fiquem desapontados comigo, porque interpreto o personagem do meu jeito. Mas também nunca telefonaram para reclamar...
Quando o Calmon ficou sabendo que você estava escalado para ser o Billy, mudou o perfil do personagem e o transformou em mocinho. Você não gostaria de interpretar um vilão?
Fábio Júnior - Não. Prefiro ser o mocinho mesmo. Até penso em interpretar um vilão algum dia, mas só mais tarde. Por enquanto, estou satisfeito com os mocinhos. Não se trata de composição de personagem. Se for assim, prefiro fazer algo mais elaborado, como um ancião, um louco ou alguma coisa parecida. Não acho interessante só apostar nos extremos. Esse negócio maniqueísta de mocinho ou vilão não me agrada. Prefiro um exercício de composição mais elaborado. Tem gente que faz isso muito bem. O Lima Duarte, o Paulo José... O Benvindo Siqueira, de ‘‘Mandacaru’’, está matando a pau...
Você se ressente do fato de não ser escalado para protagonizar uma novela da Globo?
Fábio Júnior - Esse negócio de novela é imprevisível. Não gosto de ser o centro das atenções. Prefiro correr por fora. Gosto até de citar o caso do Jorge Tadeu, de ‘‘Pedra Sobre Pedra’’. Era um personagem secundário e acabou chamando a atenção. Na própria Globo, fiz uma novela chamada ‘‘O Amor É Nosso’’. A música de abertura explodiu, mas a novela não emplacou de jeito nenhum. Estava mais para ‘‘O Fracasso É Nosso’’ que qualquer outra coisa... Mas, é difícil prever o sucesso ou fracasso de uma novela. Depende de uma série de fatores, que inclui desde direção e elenco até autor e produção. Quando essa coisa pega no breu, não tem erro. É sucesso na certa.
‘‘Antônio Alves, Taxista’’ também não correspondeu às expectativas. O que você achou da novela?
Fábio Júnior - Na época, escutei algumas pessoas falando: ‘Por que você não mete logo a cara na tevê para limpar sua imagem?’ Mas limpar o quê? Não sujei nada. Não tenho de pedir desculpas a ninguém. Fiz aquela novela com a maior dignidade. Qual é o problema? Não posso errar? É óbvio que os argentinos não têm a mesma tradição que os brasileiros. Eles não sabem nem o que é continuísta... Não tenho bola de cristal, mas também não me arrependo de nada que fiz. Artisticamente, a novela ficou ruim. Mas não prejudicou em nada a minha carreira. Tenho alguns anos de estrada nas costas. Será que todas as minhas novelas têm de ser sucesso de audiência? Isso é uma bobagem sem tamanho...
No último dia 31 de novembro, você completou 44 anos. Você não teme ficar velho demais para os papéis sedutores?
Fábio Júnior - O Chico Anysio falava uma coisa muito legal, que era a reinvenção do homem. O homem nasceria aos 60 anos e, conforme o tempo fosse passando, ficaria com 50, 40 e assim por diante. Até o dia em que morreria com a alma pura de uma criança. Isso é muito legal. Algumas pessoas dizem que pareço vinho. Acho isso ótimo! Estou mais saboroso a cada dia que passa. Não tenho mais 20 e poucos anos. Estou com 40 e poucos anos. Quatro filhos, cinco casamentos, sete novelas... Não gosto de ficar sentado contando histórias... Prefiro fazer a minha própria história.

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