Exuberância técnica e estilística do diretor é destaque no filme
Por Luiz Carlos Merten
São Paulo, 13 (AE) - Polemista profissional, Oliver Stone dividiu os críticos com filmes como os da sua trilogia sobre a Guerra do Vietnã (Platoon, Nascido em 4 de Julho e Entre o Céu e o Inferno), "JFK - A Pergunta Que não Quer Calar" e "Assassinos por Natureza". Por mais discutíveis que sejam esses e outros filmes do diretor, o que sempre salta aos olhos é a exuberância técnica e estilística de Stone. Em "JFK", só para citar um exemplo, ele cria longas sequências jogando só com a montagem dos parcos segundos de filme que documentam o assassinato do ex-presidente John Fitzgerald Kennedy.
A exuberância está de volta em "Um Domingo Qualquer". No seu novo filme, que estréia amanhã (14) em todo o Brasil, Stone invade os estádios com suas câmeras para desvendar o esporte - o futebol americano. Não é uma modalidade esportiva à qual o público brasileiro esteja acostumado. A tradução ainda complica mais, com alguns erros graves. Mas vai ser difícil ficar indiferente diante da trama. Stone arma um arsenal de truques para seduzir o espectador - e consegue.
Nada mais tradicional, até mesmo ralo, do que a dramaturgia de "Um Domingo Qualquer". Al Pacino é o treinador veterano de um time que está em má posição no campeonato. A direção, a torcida, a imprensa - todos o atormentam com cobranças. A estrela do time, um jogador também veterano, interpretado por Dennis Quaid, sofre uma lesão e fica fora das disputas. Entra em cena o garoto que só precisa de uma chance para mostrar que é o melhor. Mas Jamie Foxx é um individualista. Não une o time. É hostilizado pelo treinador, mas ganha o apoio da proprietária arrivista, uma empresária que só pensa em cifras
interpretada por Cameron Diaz.
Pausa - já é tempo de alguém dar a Cameron o que ela merece. É mais do que simplesmente uma mulher bonita. Consegue ser meiga em "Quem Vai Ficar com Mary?", um monstro de cupidez em "Um Domingo Qualquer", feia em "Quero Ser John Malkovich" e sempre convincente. A pin-up virou uma atriz. São os personagens e os conflitos que ganham uma estrutura convencional. O individualista aprende a ser solidário, fica amigo do treinador, a arrivista humaniza-se. Nada mais hollywoodiano do que os temas desse filme. O que faz de "Um Domingo Qualquer" uma obra fora de série é o estilo. Num artista, nunca é demais lembrar, o estilo é tudo. No caso de Stone, já era assim em "Assassinos por Natureza", em "Reviravolta", o tributo do diretor ao film noir.
A versão de "Um Domingo Qualquer" que passa no Brasil não é exatamente a mesma que foi lançada nos Estados Unidos. Stone cortou, na versão internacional, mais de dez minutos de cenas dentro do campo, convencido de que o futebol americano é mesmo para platéias americanas. Cortar é mesmo um dos exercícios favoritos do diretor. Num filme sobre esporte, não há uma jogada que seja mostrada integralmente por Stone. O diretor cria um verdadeiro show de corte-e-montagem que transforma as cenas em quebra-cabeça fascinante.
Logo na abertura, ele revela como vai tratar o assunto. Há uma armação de filme de guerra na preparação das jogadas de "Um Domingo Qualquer". Stone mistura cor e preto-e-branco, recorta as silhuetas dos jogadores no gramado, dá ao tratamento sonoro uma dimensão elaboradíssima que reforça a exuberância audiovisual do relato. Essa atinge o seu auge na magnífica cena da partida sob a chuva, quando o gramado de "Um Domingo Qualquer" aproxima-se das praias da Normandia filmadas por Steven Spielberg em "O Resgate do Soldado Ryan".





