Expresso para a cultura popular
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quinta-feira, 04 de dezembro de 2008
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
Há pelo menos 40 anos, dona Vilma embarcou no ''Expresso 2222'', que Gilberto Gil -numa visagem poética - enxergou partindo de Bonsucesso para o ano 2000. Vilma dos Santos Oliveira, ou Yá Mukumby, está entre os que se adiantaram, garantindo lugar nessa viagem. Com ela embarcaram também o mestre em Folia de Reis, Francisco Garbosi e o livreiro Roque Magno dos Santos.
No caminho, os veteranos da arte popular esperaram pelos mais jovens, representados em Daniella Fioruci, Fernando Goes e Valdivino Brandão. Estão todos confiantes no que afirma a música que, no ano 2000 fica a tal estação final do percurso-vida.
''No atual momento da política cultural, lembro muito da música 'Expresso 2222'. Depois de tanto tempo, esse expresso passou com o ex-ministro Gilberto Gil e todo mundo está entrando. Antes, esse expresso passava e não era todo mundo que entrava. Hoje, leigos, pesquisadores e mestres estão embarcando'', diz dona Vilma ao comentar sobre o Ação Griô, do Programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura (MinC), que valoriza a arte popular e o respeito à cultura tradicional e oral.
Os londrinenses são os primeiros, no Paraná, a participarem da ação do MinC, que pagará um salário mínimo mensal para cada integrante do projeto para que levem a arte informal para espaços formais, como escolas.
Inicialmente, os mestres, Vilma, Roque e Francisco que, como requer a ação, são pessoas reconhecidas em suas comunidades, levarão os seus conhecimentos aos alunos da Escola Odilon Gonçalves Nocett, no Jardim do Sol (Zona Oeste), e Usina do Conhecimento, no Conjunto Parigot de Souza (Zona Norte).
Com eles vão os griôs, palavra que dá nome à ação e que é uma versão de ''griot'', usada por jovens africanos que foram estudar em universidades francesas e que são movidos pela preocupação com a preservação da história de suas comunidades.
Daniella é o que a ação chama de griô aprendiz, pessoa com experiência e pesquisa em mobilização cultural, diálogo e mediação política, que vai abrindo caminho para que a arte popular chegue aos locais formais.
Para Vilma, Ação Griô tem o poder de ajudar a evitar que o estrangeirismo, que está forçando a incorporação do ''Halloween'' ao calendário de comemorações brasileiro, transforme um patrimônio cultural como o acarajé em fast food, que se comeria com catchup e mostarda.
''Com a lei 10.639, o Estado já começa a obrigar os professores a levarem a história do negro e a cultura negra aos alunos. Uma cultura que é a base da cultura brasileira. Não consigo desvincular a Folia de Reis, por exemplo, do negro. Não existe uma dissociação da cultura brasileira. O Carnaval, samba, frevo e maracatu têm como base a cultura negra'', destaca Vilma.
Garbosi que vem de uma família tradicional de foliões e que está à frente do grupo ''Mensageiros da Paz'' ressalta a importância da religiosidade, que é expressa na arte popular e que a ação ajuda a preservar.
''Hoje, a própria tecnologia faz as pessoas se afastarem do sagrado. Pretendo abrir ainda uma escola de Folia de Reis na minha casa'', acrescenta.
Os griôs também ensinarão que a arte popular é geradora de oportunidades. Além de artista plástico, Brandão é artesão. Em quatro anos, ele recolheu 135 mil garrafas pets, que transformou em 15 mil carrinhos. Com o dinheiro da venda dos brinquedos, Brandão construiu a casa onde mora.
''Todos eles são mestres, que trazem essa sabedoria e conhecimentos ancestrais para a gente. Um conhecimento que vem também com a idade'', ressalta Daniella sobre os mestres da cultura popular, que ajudam outros a embarcar no ''Expresso 2222'' com destino ao percurso-vida.


