Um dos quadros mais famosos da história da arte traz uma figura humana deformada lançando um grito lancinante numa ponte. A pintura, intitulada "O Grito", talvez seja a mais emblemática do expressionismo europeu. De autoria do norueguês Edward Munch, a tela reúne como poucas as características de desespero e morbidez daquele que foi um dos movimentos estéticos mais radicais do século 20.
A "Mostra Expressionismo Alemão", que será realizada na próxima semana na Sala de Espetáculos do Sesc de Londrina, traz os ecos dessa ebulição artística no cinema exibindo cinco filmes clássicos do estilo. Todas as sessões serão gratuitas, mas o público deverá pegar uma senha com uma hora de antecedência no local.
"O Gabinete do Dr. Caligari" (1920), de Robert Wiene, abre a programação na segunda-feira, às 19h30. Antes da exibição, haverá um bate-papo com Luciano Pascoal, professor do Departamento de Comunicação da UEL, coordenador da pós-graduação em Produção e Criação Audiovisual da Faculdade Pitágoras e dono da produtora Vertigo Filmes.
O filme começa com a história que um rapaz conta a um ouvinte sobre um estranho médico e seu assistente sonâmbulo, atrações de um parque de diversões. Eles aterrorizam a cidade, onde moradores enlouquecem da noite para o dia em meio a sinistros desaparecimentos. O filme impactou a intelectualidade europeia.
Houve quem o considerasse premonitório da ascensão do nazismo. Para o escritor e sociólogo Sigfried Krakauer, que examinou a alma alemã no período entre as duas guerras, Caligari teria antecipado Hitler em sua sede de poder e loucura assassina enquanto que César, o sonâmbulo, representaria o povo alemão anestesiado e submisso às ordens do Fuhrer.
"O Gabinete do Dr. Caligari" marcou a carreira do diretor como seu único título de sucesso de público e crítica. O crítico Luiz Carlos Merten assinala em seu livro "Cinema – Entre a Realidade e o Artifício" que o filme talvez tenha sido produto de uma equipe e não apenas do diretor, dadas as contribuições do roteirista Carlo Mayer e dos cenógrafos Walter e Herman Rohring para o processo criativo da obra.
"Caligari vê o mundo pelos olhos de um louco", escreve ele. "Aquelas linhas oblíquas, as ruas tortas, as janelas fora de esquadro, tudo, ressaltado pela fotografia à base de claros-escuros radicais, transformaram-se na expressão de um mundo em desequilíbrio".
A Mostra prossegue com "Metrópolis" (1927), de Fritz Lang, na terça-feira; "Fausto" (1926), de Friedrich Wilhelm Murnau, na quarta; "Nosferatu" (1922), de Murnau, na quinta; e "O Homem que Ri" (1927), de Paul Leni, na sexta. Nesta última sessão, haverá novamente um bate papo com Luciano Pascoal, às 19h30.
Os filmes reunidos revelam uma estética radical, uma ênfase na desintegração do mundo interior dos personagens. Os cineastas expressionistas não visavam, como salienta Merten em seu citado livro, "representar a realidade concreta. Interessavam-se mais pelas emoções e reações subjetivas que objetos e eventos suscitavam no artista e que ele tratava de expressar por meio do amplo uso da distorção, da exagero e simbolismo". Pretendiam, enfim, expor o apocalipse moral de um mundo em crise.

mockup