EXPRESSÃO SEM LIMITES
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terça-feira, 19 de junho de 2001
Francelino França De Londrina 
Os portadores de necessidades especiais de todo o Brasil encontraram na arte um canal eficaz para mostrarem suas potencialidades. No início deste mês, 840 artistas participaram do 4º Festival Nacional Nossa Arte, em São Paulo, no majestoso e histórico Teatro Municipal. De Ibiporã, a Apae Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais enviou para o Festival o grupo Despertar, que apresentou em breves e desafiadores 7 minutos a coreografia Ápice, elaborada pela professora e bailarina Rosânia de Almeida.
Os garotos de Ibiporã foram os campeões na categoria dança, recebendo emocionados a premiação. Eles concorriam com excelentes coreografias das Apaes da Bahia e Minas Gerais. Ápice passou com êxito pelas etapas regional e estadual até ser reconhecida nacionalmente. Os 21 estados representados no Festival Nacional Nossa Arte apresentaram trabalhos nas áreas de artes cênicas, artes plásticas, folclore, música e dança.
Numa apresentação para alunos, convidados e imprensa, na segunda-feira, num palco improvisado no refeitório da Apae, em Ibiporã, os bailarinos mostraram o quanto estão integrados com o ritual da dança. Ápice, segundo Rosânia, é um coreografia de dança contemporânea. O espetáculo retrata através do movimento as possibilidades de se quebrar as barreiras, as fases de crescimento e até onde pode-se chegar quando se tem determinação, independente das limitações. O espetáculo exige força física, coordenação motora e integração entre bailarinos que respondem aos estímulos de forma diferente. Dos 17 bailarinos, cinco são cadeirantes portadores de necessidades especiais que possuem alguma limitação de locomoção e usam cadeiras de rodas e com a ajuda dos companheiros são inseridos em cena. Alguns dos integrantes do Grupo Despertar estudam regularmente balé na Fundação Cultural de Ibiporã e fazem os ensaios na Apae.
Em Ápice percebe-se a necessidade de expressão dos alunos. Estar em cena, dividir o espaço com o outro e receber a atenção da platéia desperta potencialidades. A arte é um canal de integração e comunicação. Muitos alunos não conseguem ler e escrever, mas conseguem dançar, avalia Rosânia Almeida. A arte funciona como forma de inserção na comunidade e faz com que o participante se sinta valorizado, amplia sua ocupação de espaço, estimula o bailarino a expandir horizontes. Uma das bailarinas, Fabiana Duarte Monte Silva, será a autodefensora do Paraná no Congresso Nacional das Apaes, que acontece em julho em Fortaleza. Nessa função representativa, Fabiana fala pelos seus colegas junto a entidades e órgãos públicos. Apresentando-se em várias cidades do Paraná, Santa Catarina e São Paulo, os bailarinos do Despertar ganharam autoconfiança, desenvoltura, se comunicam com mais facilidade e adquiriram independência para se locomover.
Segundo Rosânia, não há bibliografia especializada sobre dança para portadores de deficiências. O trabalho é baseado na experiência como bailarina e uma boa dose de intuição. Nessa coreografia, os bailarinos estão lidando com as limitações, superando as barreiras através da arte. Eles estão vivendo a parte mais bonita da vida, com a descoberta da arte, da adolescência e se integrando com a comunidade. Os bailarinos mostram como podem ser eficientes, complementa. A professora percebe resistência na hora de integrar portadores de necessidades especiais à comunidade. Nos teatros em que se apresenta, é comum não encontrar com rampas de acesso, camarins e banheiros adaptados.
Os portadores de necessidades especiais ainda vivem um apartheid social. São poucas as escolas regulares que os aceitam, desconhecendo que mais importante do que integrá-los é dar oportunidade aos outros de conviver com as diferenças, conhecendo ritmos e formas de ver a vida com outras perspectivas. Excepcional não é para menos é para mais, resume a professora.


