Os livros de Eça de Queirós nunca ocuparam lugar de destaque na biblioteca de Selton Mello. A primeira vez que o ator se deparou com uma obra do escritor português foi quando assistiu à minissérie ‘‘O Primo Basílio’’, exibida pela Globo em 1988. Desde então, colocou na cabeça que gostaria de interpretar um personagem extraído da obra de Eça de Queirós. O que não imaginava é que, um dia, assumiria o alter ego do próprio autor em ‘‘Os Maias’’. Na minissérie de Maria Adelaide, João da Ega é um jovem contestador que vive criticando a decadente sociedade portuguesa do Século XIX. ‘‘O Eça se aproveitava do Ega para soltar o verbo. Ele é a irreverência em pessoa!’’, define.
O convite para interpretar João da Ega partiu do diretor Luiz Fernando Carvalho, com quem Selton trabalhou no filme ‘‘Lavoura Arcaica’’. Nele, o ator interpreta um adolescente que vive uma relação incestuosa com a irmã e para interpretá-lo emagreceu 20 quilos. No caso de João da Ega, não precisou tanto. Bastou ler alguns livros, como ‘‘A Relíquia’’ e ‘‘A Ilustre Casa de Ramires’’. Selton, porém, se diz surpreso com a baixa audiência de ‘‘Os Maias’’, que não passa dos 20 pontos – a meta do horário é 35. ‘‘‘Os Maias’ é uma obra sofisticada, que causa estranheza em quem não está acostumado’’, arrisca uma justificativa.
Você sempre gostou de interpretar tipos ‘‘outsiders’’, como o Emanuel de ‘‘A Indomada’’ e o Chicó de ‘‘Auto da Compadecida’’. O Ega é mais um tipo ‘‘outsider’’ desta galeria?
Nunca escondi de ninguém que prefiro os loucos, os desajustados. E o João da Ega é o mais romântico de todos. Se diz contra o matrimônio, mas sonha em casar com a mulher amada. E, com ela, vive as situações mais absurdas. Os dois transam em bordéis, cemitérios, em qualquer lugar. Gosto quando os diretores me convidam para este tipo de papel. Eles nunca pensam em mim para fazer o bonzinho. Acho isso ótimo.
O que você está achando de interpretar o próprio alter ego do autor de ‘‘Os Maias’’?
Isso só aumenta a minha responsabilidade. O Eça critica a sociedade portuguesa através da língua ferina do Ega. Nunca conheci a fundo a obra do Eça. O legal da minha profissão é que ela dá chance de descobrir coisas novas. O Eça foi uma feliz descoberta. Só espero não desapontar aqueles que leram ‘‘Os Maias’’. O Ega de quem lê tem um jeito e o meu tem outro.
Você esperava que a audiência de ‘‘Os Maias’’ fosse ficar tão aquém do esperado?
Algumas pessoas já disseram que o Eça tem um ‘‘qu꒒ de Nélson Rodrigues. Ou vice-versa. Concordo com isso. O Eça tem um humor ácido, cínico... O jeito como ele retrata a sociedade portuguesa é muito cruel e isso pode causar estranheza no público. Além disso, ‘‘Os Maias’’ é uma obra sofisticada e o Luiz Fernando tem procurado ser o mais fiel possível ao livro. Não é todo dia que a gente vê um trabalho deste nível cultural na tevê.
Em ‘‘Os Maias’’, você volta a trabalhar também com o Fábio Assunção. Qual é o segredo desta parceria bem-sucedida?
Eu e o Fábio nos tornamos grandes amigos em ‘‘Força de Um Desejo’’. Não é fácil conviver com a mesma pessoa por 10, 11 meses de gravação. Nesta profissão, não lido com pessoas, lido com egos. Eu e o Fábio temos um respeito muito grande um pelo outro. A minissérie não fala apenas do drama da família Maia, mas também de uma grande amizade. E a amizade dos dois vai ser colocada à prova quando o Ega descobrir que Carlos é irmão da Maria Eduarda. O Eça deixou essa batata quente nas mãos do Ega. É ele que vai dar a notícia ao amigo.

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