Os modernistas antropofágicos e seu movimento de renovação nas artes em busca da identidade nacional vieram à luz recentemente na minissérie ''Um Só Coração''. Em meio a essa turma, havia uma jovem impetuosa e cheia de ideais, que cultivava seus cabelos negros soltos e lábios provocantemente carregados no batom. Interpretada na telinha pela atriz Míriam Freeland, ela respondia pelo nome de Patrícia Galvão, a Pagu. A partir de hoje, Pagu é tema de uma exposição inédita, que traz a público os desenhos de seu caderno de croquis, que permaneceu fechado durante 75 anos, sob os cuidados de Rudá de Andrade, filho dela com Oswald de Andrade.
A mostra, que já esteve em Santos (cidade onde a jornalista, escritora, ativista política e ex-membro do Partido Comunista passou os últimos anos de sua vida), tem curadoria de Leda Rita Cintra Ferraz e é organizada por Lúcia Teixeira Furlani, autora do livro ''Pagu, Livre na Imaginação, no Espaço e no Tempo''. Este livro, aliás, inspirou um vídeo-documentário homônimo dirigido por Rudá. Agora em cartaz no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, a exposição reúne os 22 desenhos encontrados no caderno de Pagu, produzidos entre 1929 e 30, além de alguns documentos nunca publicados. Na ocasião, Lúcia lançará o livro ''Croquis de Pagu - 1929 - e Outros Momentos Felizes que Foram Devorados Reunidos'', editado pela Unisanta e pela Cortez Editora.
''Os desenhos estão como foram achados. Alguns ficaram amarelados por causa da ação do tempo'', comenta Lúcia. Rudá, que assina a produção da mostra, conta que esse material não havia recebido nenhum tratamento especial. Ficara na gaveta, como se guarda documentos da família. ''Minha mãe se tornou importante depois de morrer, as pessoas a descobriram e, por isso, suas coisas passaram a ser consideradas importantes.'' Nesses croquis, fica evidente a maneira despretensiosa com que Pagu fez seus rabiscos, como que se quisesse registrar, como ela própria define, o tempo mais feliz da vida dela, ''em que eu tinha fé - os erros, os desentendimentos, o abrigo, a aventura, tudo aquilo que se foi, quando havia um ideal para se empunhar uma bandeira.'' Fora um período promissor, marcado pelo início da vida com Oswald, de sua produção artística, literária, jornalística, de sua militância política e do nascimento de Rudá. Para Lúcia, a maioria das pessoas conhece somente parte da vida de Pagu. ''Ela precisa ser analisada na trajetória, não num momento em específico. Necessita ser mostrada em sua humanidade, foi perseguida, torturada pelos companheiros de partido e pelo Estado.''
Hoje, na abertura da mostra, haverá a projeção do documentário ''Eh Pagu, Eh!'', de Ivo Branco, produção da década de 80, que, com o livro de Augusto de Campos, contribuiu para a redescoberta de Patrícia Galvão. Branco ficou também preocupado em retratar as várias facetas de Pagu. ''Queria recuperar a figura humana. '' O vídeo pode ser comprado pelo e-mail [email protected].


Serviço
- Desenhos de Pagu - Patrícia Galvão. De hoje a sexta, das 14 às 22 horas; sábado e domingo, das 11 às 20 horas. MIS. Avenida Europa, 158, tel. 3062-9197. Até 30/5. Na abertura da mostra, às 19h30, acontece o lançamento do livro ''Croquis de Pagu - 1929 - e outros momentos que felizes que foram devorados reunidos''. Editoras: Unisanta e Cortez. 128 páginas. R$ 30,00

mockup