São Paulo, 03 (AE) - O progresso científico e tecnológico empurrou para o fim do século uma questão não respondida pela arte há mais de cem anos. Se o simbolismo, em sua ânsia antinaturalista, surgiu como uma reação ao materialismo e à ausência de valores espirituais, era lícito esperar que os artistas pós-conceituais tivessem não exatamente a resposta, mas uma proposta para enfrentar a máxima minimalista do "menos é mais". No entanto, o que se vê em quase todas as exposições contemporâneas é uma retomada nostálgica das questões simbolistas e de experiências formais anteriores mesmo ao fenômeno Duchamp, que em 1917 já desprezava o objeto de arte único. A exposição Território Expandido, no Sesc Pompéia, suscita, de certa forma, essa desconfiança.
Naturalmente, a exposição, montada para homenagear as 14 personalidades da cultura brasileira indicadas para a terceira edição do Prêmio Multicultural Estadão, não pretende ser um divisor de águas ou apontar um futuro para as artes visuais. A intenção da curadora Angélica de Moraes foi apenas a de convidar bons artistas para interpretar a obra desses 14 indicados, entre escritores, dramaturgos, músicos, psiquiatras e bailarinos, desafio que exige desses mesmos artistas livre trânsito em áreas de conhecimento que pedem a renúncia ao sistema cartesiano. De qualquer modo, é uma exposição para ser vista, justamente por mostrar que a arte nem sempre é a "encarnação sensível" de uma idéia. Ela pode ser apenas o fantasma dela.
Metáfora enfurecida - Os minimalistas bem que tentaram expurgar a metáfora da arte, mas ela voltou enfurecida e hoje habita confortavelmente entre os novos simbolistas. A Marquês de Sapucaí, território exclusivo da alegoria, ganhou, enfim, fortes concorrentes: os museus e galerias de arte, que impõem aos artistas uma adequação ao contexto. Submetidos a um novo modelo de curadoria que os bloqueia até a medula, os artistas acabam por produzir obras não apenas desinteressantes como dramaticamente rudimentares. Metáforas miseráveis são típicas de uma sociedade de exclusão, incapaz de conviver com o real e as diferenças sociais. Os artistas, filhos diletos dessa sociedade, estão incapacitados para o diálogo interclassista. Quando pensam num mundo que não seja o deles, o resultado costuma ser uma catástrofe.
Não há grandes catástrofes na exposição Território Expandido
mas a ausência de obras de peso é notável. Respeitados artistas como Nelson Félix ou Fajardo estão representados por obras menores e o fenômeno deve ser atribuído ao mito da racionalização e eficiência predominante neste fim de século. Acossados por demônios arquetípicos que os obrigam a perder o controle, esses artistas preferem se refugiar no porto seguro da matéria.
Não há muita diferença entre esse e o procedimento dos simbolistas, que procuravam fugir do presente buscando no passado uma resposta para a negligência espiritual da então emergente sociedade materialista. Nos anos 80, tudo era "matérico". Nos anos 90 a matéria persegue o estatuto de espírito, talvez influenciada pela praga new age e anjinhos sem muito o que fazer no território celestial.
Ao adotar o conceito de "escultura expandida" defendido pela historiadora e crítica norte-americana Rosalind Krauss, a curadora imaginou criar uma sintonia entre o uso desses materiais e o "potencial metafórico" neles embutido. Em outras palavras, essas obras incorporariam materiais e procedimentos diversos, segundo a crítica Angélica de Moraes, com o propósito de avançar num território dominado pela imobilidade (como o da escultura). Daí a inclusão de nomes que trabalham com instalações e obras específicas (site specific), criadas para dialogar com a arquitetura do espaço que habitam temporariamente.
O caso da obra de Fernando Limberger em homenagem ao cineasta Maurice Capovilla é exemplar. Concebida como representação metafórica do esforço de Capovilla para criar um pólo de cinema no Ceará, a instalação é composta de um lençol branco sobre o qual foram colocadas algumas enxadas, signos de "transformação e trabalho coletivo". Tudo reduzido a um slogan
na melhor tradição publicitária.
Outro exemplo de recuperação anacrônica do ideal simbolista é a homenagem de Sandra Cinto ao editor Carlos ávila, uma gangorra branca em que uma pilha de livros desafia a gravidade "para criar uma metáfora sobre o lugar da cultura". Foram justamente as tentativas de achar um lugar para ela que levaram a cultura oficial (a dos artistas e intelectuais) a ter esse posto hegemônico no mundo contemporâneo, destruindo todas as outras formas periféricas de cultura, com as quais os críticos (e artistas) não se ocupam. O que fazer?
Seria inútil enumerar todos os objetos e instalações da mostra, mas três outros exemplos gritam como fantasias mitológicas simbolistas travestidas: o "fogão" de Daniel Acosta, que lembra o "lado gourmet" de Luis Fernando Verissimo
o estandarte vermelho de Carmela Gross feito para o diretor José Celso Martinez Corrêa e, finalmente, o piano de Nelson Félix em homenagem a Carlinhos Brown. Está certo, o piano é um instrumento de percussão e a dormideira é uma planta muito sensível, mas o olho contemporâneo merece obras menos óbvias do que um piano ameaçado por um bloco de mármore. Félix, um grande artista, já fez esculturas e objetos bem mais interessantes. Andando para trás, vamos acabar chegando a Edward Burne-Jones e Rossetti.
Parece natural que a fase posterior à agonia da process art ou da antiforma fosse justamente a da afirmação matérica, mas o que não se poderia supor é o alcance desse tipo de investigação num território metafórico paradoxalmente dominado pela matéria. Querem tirar o que de um bloco de mármore? Obrigá-lo a falar, como na lenda do Moisés de Michelangelo? E de um estandarte vermelho? Ressuscitar as vítimas da ditadura militar, que silenciou artistas e reprimiu José Celso? Elas, afinal, também assumiram uma existência imaterial e transformaram-se em conceito, mas mereciam outra obra de Carmela Gross.
Grandes e pequenos, veteranos e neófitos, o mérito da exposição Território Expandido é o de reunir artistas dispostos a errar, o que é sempre melhor do que adotar uma atitude extremista como a dos artistas conceituais ou mesmo dos minimalistas, cheios de suas certezas. Por outro lado, preocupar-se demais com a imagem e seu significado pode levar a um estado catatônico, paralisante, agravado pelo poder quase irrestrito da curadoria nestes tempos de muito discurso e poucas obras de real valor (vide a última Bienal de São Paulo). Serviço: Território Expandido, de sexta a domingo, das 9h às 21h. Sesc Pompéia, área de Convivência. Rua Clélia, 93. Telefone: 3871-7777. Até domingo (06)

mockup