São Paulo, 16 (AE) - A exposição multimídia "Mehinaku - Message from Amazon", que o Museu da Imagem e do Som (MIS), de São Paulo, inaugura na terça-feira, é a primeira etapa de um longo projeto de investigação acerca do universo indígena que procura fugir do caráter paternalista que muitas vezes assumem as comemorações em torno do dia 19 de abril. "Não fizemos um trabalho sobre os índios, mas com os índios", explica o coordenador do projeto, Vito DAlessio, lembrando que eles participaram ativamente do processo, realizando vídeos, pinturas e contribuindo com a seleção de objetos representativos de sua cultura.
Durante três anos, uma equipe coordenada pela produtora Dialeto e financiada pelo Rainforest Foundation visitou a tribo dos mehinacu, procurando compreender como vivem os poucos representantes da mais isolada comunidade indígena do Xingu. Para evitar que essas visitas criassem qualquer tipo de problema para a comunidade, elas foram espaçadas no tempo (no total foram cinco expedições) e pautadas por um grande respeito. DAlessio conta que durante os três primeiros dias, as seis pessoas da equipe estavam proibidas de usar as câmeras fotográficas para "não criar uma barreira para a espontaneidade do índio". De início, a equipe só brincava, nadava e jogava futebol, dos poucos hábitos que aprenderam com o homem branco. E as estadias duravam no máximo dez dias.
Os mehinacu foram escolhidos para iniciar o projeto desenvolvido pela Dialeto exatamente por seu grande isolamento. A tribo, que sempre viveu na mesma região e acabou sendo "abraçada" pelo Parque do Xingu quando este foi criado, manteve seu primeiro contato com a civilização há pouco mais de um século, tendo sido descoberta pelo etnólogo alemão Karl Von Steinen, mas sempre ficou muito preservada.
Trata-se de um grupo pequeno, de apenas 120 índios, dos quais apenas 5% saíram da comunidade. E apenas cinco ou seis deles tem noções de português, como o chefe Yumuin, que estará na abertura da exposição em São Paulo. Kamalá Mehinacu não pôde vir a seu vernissage. São de sua autoria os desenhos e pinturas que constituem um dos pontos altos da mostra por traduzir em imagens figurativas o universo indígena. Sua linguagem é primitiva, marcada por um traço simples e uma ampla gama de cores.
"Ele começou a representar graficamente o que pertencia apenas a cultura oral", explica DAlessio. Um vídeo realizado por Aiuruá Mehinacu sobre a vida em sua tribo - atualmente ele vive em Brasília - também merece destaque e chegou a receber a menção honrosa no JVC Vídeo Festival, realizado no ano passado no Japão.
O evento do MIS é uma forma de mostrar visualmente ao grande público a riqueza da cultura mehinacu. Os organizadores do projeto pretendem levar a mostra a outras capitais e em julho estarão lançando um livro bilíngue e um vídeo, com maior densidade de pesquisa. Ao todo, cerca de 30 pessoas contribuíram para o projeto durante esses três anos de trabalho. E se tudo der certo elas terão ainda uma década de pesquisa pela frente, já que a parceria entre a Dialeto e a Rainforest Foundation promete render outras três pesquisas do mesmo escopo.
A idéia é estudar pelo menos uma tribo representativa dos quatro troncos linguísticos existentes no Brasil. Depois do mehinacu (tronco caribe) será a vez dos caiapós, representantes do tronco jê.

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