São Paulo, 28 (AE) - O Museu de Arte de São Paulo vem dar um novo impulso às comemorações do Descobrimento com a inauguração, na sexta-feira (31), da exposição "Brasil 500 Anos - Descobrimento e Colonização". Mesmo tendo um enfoque mais histórico do que artístico, a mostra reúne uma série de obras-primas que têm tudo para encantar o espectador - seja por sua qualidade artística, seja por sua importância simbólica. Ao todo, são cerca de 230 obras e documentos de coleções públicas e privadas do Brasil e de Portugal.
A exposição, apresentada à imprensa durante uma entrevista coletiva, organiza-se em torno de quatro núcleos. O primeiro e mais importante módulo, para o qual foi construída uma cenografia especial no centro do hall cívico do museu, é Projeto e Projeção de Portugal e reúne o filé mignon do evento, com documentos e obras cedidas especialmente por duas importantes instituições portuguesas: o Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa e a Torre do Tombo.
O primeiro cedeu a pintura sobre madeira "O Inferno", uma das raras imagens do século 16 com referências à recém-descoberta colônia. Nessa escura e densa representação do inferno, o demônio mais poderoso provavelmente é um índio. "Ele tem o rosto escondido, mas o braço coberto de plumas", ressalta o diretor da instituição, José Luís Porfírio - que é um dos co-curadores da exposição e veio a São Paulo acompanhar de perto o transporte e a montagem das obras.
Segundo ele, esta é a primeira vez que a pintura vem às Américas e provavelmente não sairá nunca mais de Portugal, já que o fato de ela ser pintada sobre madeira a torna ainda mais frágil. Essa é uma das raras obras desse período que sobreviveram à Inquisição - fato surpreendente, já que há nela representações consideradas interditas, como nus explícitos e um caldeirão cheio de pessoas (sendo supliciadas ou preparadas para servir de repasto aos canibais), dentre as quais vários padres. Não se conhece a identidade do autor, mas provavelmente ela foi feita por artista de origem flamenga e reflete a forte influência da escola de Flandres sobre a arte portuguesa do período do Descobrimento. O Museu de Arte Antiga cedeu ainda a tapeçaria "O Desembarque" e a tela O Bom Pastor.
Outros grandes destaques do núcleo principal - cedidos pela Torre do Tombo - são os originais do "Tratado de Tordesilhas - que em 1494 dividiu o mundo entre Portugal e Espanha - e da Carta do Mestre João", escrita pelo físico e cirurgião da esquadra de Pedro álvares Cabral e considerada uma das certidões de nascimento do Brasil, com a Carta de Pero Vaz de Caminha que poderá ser vista a partir de abril na Bienal dos 500 Anos. Nela se encontra o primeiro desenho da constelação do Cruzeiro do Sul.
Essa representação geográfica da nova terra recém-descoberta remete ao segundo núcleo da exposição, intitulado Speculum Brasiliae: A Formação da Imagem Cartográfica do Brasil, que mostra por meio de cerca de 40 mapas como foi sendo construída ao longo dos séculos uma idéia concreta do que viria a ser o Brasil.
Os outros dois núcleos de obras - Imagens de Vilas e Cidades do Brasil Colonial e Paisagem Urbana Brasileira na Pintura - também retomam a idéia de construção do território e procuram colocar por terra a idéia de que não exisitia um projeto urbano no Brasil colonial. Fruto de uma pesquisa cuidadosa desenvolvida há 40 anos pelo professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Nestor Goulart Reis Filho, as mais de cem imagens reunidas na mostra revelam como é equivocada a idéia de que não existiram projetos urbanísticos no Brasil colônia.
"Em 1585 já se faziam cidades com projeto tipo tabuleiro de xadrez", ressalta o arquiteto, afirmando que tivemos uma vida urbana e cultural muito intensa. Reis Filho também está lançando um livro que reúne mais de 300 das 500 imagens que recolheu ao longo de sua pesquisa e preparou uma mostra itinerante com reproduções fotográficas desse rico material.
Segundo o historiador Luiz Marques, que responde pela curadoria de parte da mostra, o principal objetivo desse evento multifacetário organizado pelo Masp não é apenas mostrar como se desenvolve uma idéia de território, quer por meio da cartografia
quer por meio de projetos de construção urbana, mas principalmente o de reafirmar a importância de Portugal e da cultura ocidental na formação do Brasil. Em outras palavras, a intenção é mostrar "como nós viramos um projeto da Europa", explica.
Apesar de saber que esse enfoque não é politicamente correto nesses tempos de valorização de busca de uma identidade nativa - segundo ele "um equívoco derivado do modernismo" -, ele considera que só se pode pensar a cultura nacional se dermos o devido reconhecimento à importância preponderante dos componentes luso-africanos na formação dessa identidade. "Você não procura uma identidade, você a tem", diz Marques. "Se nós criticamos a Europa, é com a língua que ela nos ensinou", brinca.
Quanto mais nos aproximamos de abril, mais difícil fica selecionar o que vale a pena ver dentre a overdose de exposições e eventos em torno dos 500 anos. No entanto, mesmo cansados da euforia em torno da efeméride, quem gosta de arte e de história não pode deixar de lado essa oportunidade única de ver de perto peças raras como as que estão expostas no museu da Avenida Paulista. Serviço - Brasil 500 anos - Descobrimento e Colonização. De terça a domingo, das 11 às 18 horas. R$ 10,00. Masp. Avenida Paulista, 1.578, tel. 251-5644. Até 7/5. Abertura sexta, às 19 horas, para convidados