São Paulo, 26 (AE) - A cultura pop pretendeu um dia criticar a ânsia de consumo devorando signos da sociedade industrial. Hoje, ela tenta se livrar deles e não consegue. A indústria devorou a cultura pop. Da mesma forma que o pop Lichtenstein denunciou a afasia dos jovens americanos consumidores de quadrinhos e acabou consumido pelos filhos uniformizados dos neoliberais, a arte acabou nas prateleiras dos supermercados ajudando a vender potes de requeijão. É uma das conclusões que o visitante chega ao final da visita à exposição "O Consumo", no Itaú Cultural, em São Paulo, até 6 de fevereiro.
Má sorte que a lógica da sociedade de consumo seja a de tornar obsoleto seus produtos para forçar a entrada de outros. Consumir para existir é o slogan máximo dessa nova mutação antropológica que começou a tomar forma no pós-guerra e produziu clones nos loucos anos 60. A exposição dedica boa parte de seu espaço a uma discussão sobre formação do imaginário desses mutantes, começando numa sala no térreo com dois ícones utilizados pela arte pop, a "Mona Lisa e a Coca-Cola".
É um passeio divertido no jardim das delícias do consumo
se ainda é possível achar divertido pinguins de geladeira, telas de Gerchman e abajures de astracã sintética. O curador Frederico Morais, em outro segmento, "Beba Mona Lisa, é mais ambicioso". Trata de devoração iconográfica e de guerrilha artística contra a expansão do "imperialismo americano", reservando um altar à peça mais provocante da mostra, as garrafas de Coca-Cola que trazem inscrições "subversivas" de Cildo Meireles.
Subindo as escadas, o visitante vai encontrar a "Metamorfose do Consumo dos Anos 60". O curador da mostra é o cenógrafo Cyro del Nero, que preparava os desfiles da Fenit. É um segmento curioso, ele destaca um lado pouco conhecido de artistas geniais como Iberê Camargo, Willys de Castro e Milton Dacosta, o de designers de tecido. O circuito da moda, a incorporação do plástico na criação artística e o nascimento da wearable art são traduzidos por obras de Burle Marx, Maria Bonomi e Fernando Lemos, entre outros.
Um dos segmentos mais interessantes da mostra é o "Paratodos", que tem curadoria de Adélia Borges. Ela revela para o grande público a produção artesanal de grandes artistas, como os azulejos que Volpi assinou antes de ficar conhecido ou os do escultor Amilcar de Castro para a Oficina Cerâmica Terra. Nesse segmento se destacam ainda os tecidos da Arte Nativa Aplicada e os painéis desenhados por Athos Bulcão para os prédios de Oscar Niemeyer.
O ponto final da mostra é o segmento "Novos Alquimistas", também com curadoria de Adélia Borges. A exposição apresenta móveis, luminárias, roupas, tecidos, jóias, pratos e cortinas. Representa uma esperança ao inverter o circuito de consumo. Mantas feitas com fios de garrafas plásticas convertidas em flocos, cortinas feitas com fios de palha de milho e taboa, roupas feitas com escamas de peixe desidratadas e luminárias feitas com os restos da civilização mostram que ainda existe uma saída de emergência no inferno da sociedade industrial. SERVIÇO: Cotidiano/Arte: "O Consumo". De terça a sexta, das 10 às 21 horas; sábado e domingo, das 10 às 19 horas. Itaú Cultural. Avenida Paulista, 149, tel. 238-1700. Até fevereiro.

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