Exposição-instalação marca 30 anos de Ana Maria Machado
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quinta-feira, 21 de outubro de 1999
por Dib Carneiro Neto 
São Paulo, 22 (AE) - Quando desenvolvia sua tese de doutorado na França, tendo como orientador o semiólogo Roland Barthes, a brasileira Ana Maria Machado ouviu do autor dos Fragmentos de um Discurso Amoroso o maior elogio que o papa dos sintagmas e dos paradigmas poderia fazer a alguém: "Você domina os conceitos e rejeita os jargões." A autora de "Bisa Bia, Bisa Bel" e "Raul da Ferrugem Azul" acabava de ganhar o título de Ph.D. em simplicidade.
Uma exposição-instalação marca, no Rio, os 30 anos de carreira dessa escritora objetiva, direta, clara e muito criativa. Ana Maria Machado considera como o início de sua trajetória literária as participações, em 1969, na revista infantil Recreio, um marco editorial da época. "Eu dava aulas de literatura brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro e adorei ser convidada para escrever para crianças naquela nova revista", conta.
A mostra comemorativa fica montada até sexta-feira na Casa de Rui Barbosa, com cerca de duas centenas de peças ilustrativas da carreira de Ana Maria. São capas de todos os seus 105 livros, incluindo as edições estrangeiras, fac-símiles, fotografias, cartazes, móveis e objetos ligados ao cotidiano da prolífica criadora. Há até uma réplica de um ambiente tirado do mais recente romance para adultos da escritora, A Audácia dessa Mulher (Nova Fronteira). Ela também está lançando o seu 96.º livro infantil, Mas Que Festa! (Nova Fronteira, 32 págs., R$ 14 00), cujo título tem muito a ver com essa fase de comemorações. "Por incrível que pareça, é a primeira vez que escrevo sobre uma festa de aniversário", comenta.
"O que eu escrevo fica simples de tanto eu tirar o supérfluo", conta ela. "Não é que nasce simples, existe uma elaboração." Ela completa: "Adoro pronomes bem colocados, questões linguísticas, vocabulário elaborado; enfim, ser simples não significa lançar mão de simplificações tatibitates." Essência - Em três décadas de produção literária, Ana Maria Machado sempre usou a palavra como ponte, não como barreira. Vem daí todo o seu sucesso e essa fama de escritora simples. As crianças mudaram? Ela acha que não. "O que me comove muito é justamente constatar como as perguntas que os jovens leitores me fazem são sempre as mesmas desde quando comecei", diz. "Isso significa que a essência é o que conta e não as mudanças tecnológicas."
O que mudou, segundo ela, é que há hoje uma profusão, um dilúvio de livros no mercado e ninguém consegue ler. "Há falhas na distribuição, na divulgação, poucas livrarias, hipervalorização de obras fracas e dificuldade em encontrar nas prateleiras não só os clássicos, como Graciliano e Rosa, mas também os novos de qualidade." Quem seriam esses talentos contemporâneos, na opinião de Ana Maria? "Zulmira Ribeiro Tavares e Cristóvão Tezza, por exemplo", cita. "Às vezes, é mera desinformação do livreiro, que não tem noção do que é melhor para comprar e abastecer sua loja", acrescenta ela, que também já foi dona de livraria no Rio.


