São Paulo - Na escadaria do lado de fora do Paço das Artes, na capital paulista, enormes letras anunciam: ''se vende''. Dentro, uma exposição que tem um preço como título. No caso, os R$ 748.600 captados para financiar esse projeto.
Toda a mostra parece uma alegoria do que se propõe a discutir, a relação entre os artistas e o dinheiro que suas obras movimentam num mercado de cifras e valores cada vez mais hiperbólicos.
Logo na entrada do espaço, um trabalho de Deyson Gilbert força visitantes a olhar um sinal de adição gravado em lâmpadas de halogênio, deixando um rastro na retina de quem vai à mostra.
''Tudo é uma tentativa de exacerbar o capital dentro das artes plásticas'', resume Renan Araújo, curador da exposição financiada pelo banco Santander. ''Até o texto do catálogo foi revisado por economistas que tentaram mudar palavras para termos econômicos mais técnicos.''
Mas nenhum jargão ofusca uma relação que está clara em boa parte dos casos.
''Zero Dólar'', em que Cildo Meireles altera uma cédula para que perca o valor, colares de notas feitos por Marcelo Cidade e até os rabiscos de Jac Leirner sobre cédulas de cruzeiro denotam a intimidade dos autores com os mandos e desmandos do capital.
São trabalhos com ressonância ainda maior num país como o Brasil, que já trocou oito vezes de moeda ao longo da história e registra agora expansão vertiginosa no mercado de arte, um aumento de sete vezes no volume negociado nos últimos quatro anos, segundo um levantamento recente do setor.
Em dezembro passado, ''Sol sobre Paisagem'', de Antônio Bandeira, foi leiloado por R$ 3,5 milhões em São Paulo, maior valor já pago pela obra de um brasileiro.
Ebulição global
Enquanto isso, o mercado internacional dá sinais de recuperação. Esse mês, a Sotheby's de Londres tenta voltar a patamares pré-crise vendendo uma obra de Pablo Picasso de 1932 com preço inicial de R$ 45 milhões.
Um retrato da mesma série e da mesma Marie-Therèse alcançou há dois anos a cifra de R$ 177 milhões, recorde absoluto na história dos leilões que, analistas esperam, será desbancado agora.
Paris acaba de montar a primeira bolsa de valores de arte no mundo, em que investidores compram ações de trabalhos negociados, como títulos de grandes empresas, e lucram com as oscilações repentinas do mercado.
Mas longe da algazarra de leilões e pregões, outras obras no Paço das Artes, enclave frondoso na Cidade Universitária paulistana, dão conta de outro aspecto dessa relação com o mercado.
Cartazes do grupo Pino anunciam produtos inúteis que se encaixariam bem em ambientes corporativos, espécie de arsenal de aspones. Rodrigo Matheus replica esse habitat cinzento em sua obra: mesa e monitores para vigiar o vaivém das bolsas e das bolhas especulativas.

Serviço
748.600
Quando - ter a sex., das 11h30 às 19h; sáb. e dom., das12h30 às 17h30
Onde - Paço das Artes (av. da Universidade, 1, tel. (11) 3814-4832)
Quanto - grátis

mockup