São Paulo, 16 (AE) - A exposição de Alfredo Volpi (1896-1988), que será inaugurada amanhã (17) à noite para convidados no Gabinete de Arte Sylvio Nery, vai revelar ao público alguns momentos preciosos da produção desse artista considerado por muitos como o maior pintor brasileiro. Os 25 trabalhos selecionados para a mostra, apesar de comporem um conjunto restrito de obras, têm várias razões para brilhar.
Em primeiro lugar pertencem a um admirador de longa data do artista e várias foram compradas diretamente das mãos de Volpi. O colecionador, que prefere não ter seu nome divulgado, é um dos membros da Sociedade de Catalogação para a Obra de Alfredo Volpi, tendo sido o primeiro acervo a passar pela inspeção dos peritos, tanto que suas telas têm os primeiros números de registro desse levantamento. Além disso, a curadoria da mostra coube a um outro grande especialista e membro da Sociedade, Ladi Biezus, que procurou selecionar obras representativas das várias experiências cromáticas e construtivas do mestre do Cambuci.
"Não há nenhum pintor na arte brasileira que tenha um encadeamento tão coerente como Volpi", diz Biezus, lembrando que mesmo quando ele pinta figuras, há uma profunda ligação entre esses elementos e o restante de sua obra. Divisor de águas - Dentre os trabalhos reunidos na exposição, Biezus chama a atenção para obras como "Fachada de São João", do início da década de 50. Essa tela é uma das duas únicas obras conhecidas de Volpi que retratam fachadas com enfeites de festa junina e que indicam toda a especulação de formas e cores que se seguirá. Ela funciona então como uma espécie de divisor de águas
um marco de seu afastamento total da realidade. A própria profundidade do quadro não é mais garantida pela perspectiva tradicional, mas pela manipulação das propriedades cromáticas.
Outra obra da mostra é "Barco e Sereia", do início da década de 50, que pertencem a uma série rara de pinturas de Volpi sobre brinquedos populares. Um outro quadro da mesma fase pertenceu a Theon Spanudis, que doou sua coleção ao Museu de Arte Contemporânea (MAC), tornando a instituição depositária de uma das mais importantes coleções de Volpi.
Sereias, Cristos, paisagens interioranas mesclam-se às composições de bandeirinhas que acabaram tornando-se, equivocadamente, a marca registrada do pintor. O próprio Volpi dizia que não pintava bandeirinhas e que todo o problema da pintura, para ele, resumia-se a forma, linha e cor. Tratava-se, na verdade, de formas geométricas - assim como seus mastros, portas e outras figuras que ele repetia incessantemente - que serviam de pretexto para ele brincar com as cores. Isso apesar de ele confessar a importância para sua obra do impacto que teve ao ver numa madrugada, descendo do trem em Mogi das Cruzes, uma cena de casas enfeitadas para as festas juninas.
A idéia foi representar bem as décadas áureas da produção de Volpi. Segundo a crítica, ele estaria fazendo referência aos anos 40 e 50, quando o artista mergulha definitivamente na depuração das formas, construindo sua obra ao manipular de forma incansável um mesmo vocabulário de formas e cores. Mas para Biezus, sua produção culmina nos anos 60 e tem momentos fundamentais na década de 70. "Volpi é maravilhoso porque não tem decadência".
Para reforçar sua argumentação o curador mostra a tela "Mastro e Bandeiras", pintada por Volpi no início da década de 80, quando já estava beirando os 90 anos. Nesse trabalho se nota a perfeição técnica do artista, a gestualidade de suas mãos, cujas pinceladas cuidadosas permitem criar campos delicados e transparentes de cor.
"Fachada de São João" é a mais valiosa tela da mostra, estando cotada em US$ 550 mil. Para o curador, esse valor ainda está aquém do que Volpi pode alcançar no mercado nacional e internacional de arte. Afinal, uma tela de Guignard acabou de ser vendida por US$ 690 mil num leilão da Christies, em Nova York. Ele se lembra de que há vários anos teve a oportunidade de comprar um quadro de Rufino Tamayo - "o maior artista mexicano" - por US$ 80 mil. Optou por ficar com quatro telas de Volpi. E não se arrepende, pois tem certeza de que o artista tem muito a crescer em termos de mercado. Obras suas já começam a aparecer em importantes coleções internacionais como a de Patrícia Cisneros.
O marchand Sylvio Nery confirma esse interesse dizendo já ter recebido vários telefonemas de clientes argentinos em busca de obras de Volpi antes mesmo da inauguração da exposição e que cinco obras já foram reservadas. Biezus concorda que as telas expostas poderiam teoricamente ser vendidas em leilão, mas pondera que esse tipo de venda não tem tradição no País e muitas vezes ele assume quase um caráter de liquidação. Serviço - "Volpi: Obras Selecionadas". De segunda a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, até 13 horas. Galeria Sylvio Nery. Rua Oscar Freire, 164, tel. 3064-3086, em São Paulo. Até 17/7.

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