São Paulo, 01 (AE) - A arte do século 19 no Brasil foi relegada durante muito tempo, e injustamente, a um papel secundário. Mas, nas últimas décadas, ela vem conquistando cada vez mais o interesse dos especialistas, do público e do mercado. Esse esforço crescente para compreender a riqueza desse legado iconográfico ganhará uma importante contribuição a partir do dia 13, quando será aberta a exposição "Coleção Brasiliana" - com um vasto panorama de 133 obras - e lançado o livro "Revelando um Acervo", na Pinacoteca do Estado. Esse duplo evento é fruto de cuidadoso estudo.
Nos últimos três anos, os pesquisadores Carlos Martins e Valéria Picolli se dedicaram não apenas a recuperar e restaurar essas obras, mas procuraram seguir as pistas de cada uma das 260 pinturas, aquarelas, gravuras e desenhos que compõem a coleção, a fim de reconstituir a história de seus autores, estudar mais a fundo os temas e motivos retratados e, finalmente, dar uma cara a esse acervo. A maioria das obras foi comprada pela fundação inglesa Rank-Packard dos herdeiros de Jacques Kugel, um antiquário ucraniano radicado em Paris. Durante mais de 40 anos, ele juntou iconografias sobre o Brasil sem maiores critérios.
"Kugel não colecionava, ele juntava", afirma Martins. "Ele foi realmente amealhando, com um olho muito bom, o que faz com que sua coleção tenha tanto artistas da academia, com uma formação erudita, como desconhecidos, completamente descompromissados", explica. Se isso faz com que a coleção da Rank-Packard - que foi trazida ao Brasil para ser estudada e catalogada pela Fundação Estudar - tenha apenas uma obra de Jean-Baptiste Debret (o objetivo é completar as lacunas pouco a pouco), ao mesmo tempo dá a ela um saboroso caráter eclético.
Além dos trabalhos acadêmicos, há obras que retratam o cotidiano de forma livre, que resgatam o caráter pitoresco da paisagem e reconstituem os hábitos e costumes da época, servindo de importante instrumento de pesquisa aos historiadores. Há, por exemplo, uma série de 25 aquarelas de um marinheiro francês chamado Jules Marie Vincent de Sinety retratando toda a viagem para o Brasil (desde a saída do Estreito de Gibraltar, a festa de travessia do Equador, até a visão da chegada à Baía de Guanabara e a cena de um aguadeiro montado em seu burrico).
Inicialmente, pensava-se que o autor desses trabalhos fosse um ilustre desconhecido chamado Linety. Com a pesquisa descobriu-se que se tratava de Sinety, que nasceu em 1812 (não se sabe quando morreu), passou pelo Rio em direção ao Uruguai e que pretendia lançar um livro sobre o País. Ele tinha até mesmo o frontispício pronto. Essa é apenas uma das interessantes descobertas narradas no livro. Há outros casos fascinantes, como a atribuição da tela "Praia de d. Manuel" a Félix-Emile Taunay (filho de Nicolas Antoine Taunay e também membro da Missão Francesa) a partir da comparação dessa pintura com outros trabalhos do autor. Panorama - Outra obra que tem uma história interessante é o papel de parede panorâmico de 15 metros de comprimento feito por Jean Julien Deltil, em 1830, a partir de litografias de Johann Moritz Rugendas. Como era comum na época, Deltil construiu um cenário maravilhoso da natureza brasileira, povoada por índios, brancos e negros, sem jamais ter pisado no País. "Só Deus sabe como isso durou tanto tempo", diz Martins. A obra acaba de ser restaurada e descobriu-se que o papel foi aplicado em três paredes diferentes (sem que portas ou janelas fossem cortadas). De uma dessas colagens sobraram vestígios de um jornal italiano do fim do século 19.
Ao papel de parede é dedicado um dos quatro textos de colaboradores publicados no livro, escrito pelo diretor do Museu do Papel Pintado, na França, onde estão guardadas as quase 1.700 matrizes de madeira utilizadas para realizar essa complexíssima xilogravura. Dois artigos se referem a Debret. Enquanto a restauradora francesa Caroline d'Assay fala sobre as dificuldades de recuperar uma tela do mestre - e atenta para os perigos de trabalhar com pinturas do século 19, quando os pigmentos industrializados começaram a ser utilizados -, o diplomata João Hermes Pereira de Araújo escreve sobre a história do pintor francês.
Por último, o pesquisador Ernst Van Den Bogaart escreve sobre as alegorias, representadas na coleção com duas telas de autor anônimo. Essas representações dos continentes americano e africano são os únicos trabalhos da "Coleção Brasiliana" que não pertencem ao século 19, tendo sido pintadas na segunda metade do século 17. Livro - Uma das grandes qualidades do livro "Revelando um Acervo" é que ele não apenas reproduz as obras da coleção, mas também as cotejam com trabalhos de outras coleções, contextualizando-as no tempo e no espaço. "O livro tem como espinha dorsal a "Coleção Brasiliana", mas seu grande objetivo é ser referência sobre a iconografia do século 19", resume Martins. Infelizmente, o índice remissivo foi organizado não pelo sobrenome, mas pelo nome dos artistas, o que dificulta a consulta.
É interessante, por exemplo, notar como François-Auguste Biard pinta da mesma forma os indígenas da Amazônia (na tela Índios Adorando o Sol, presente na exposição) e aqueles da Lapônia (representados pelas reproduções de duas telas pintadas por ele na região, em 1840). Esse caso mostra como muitas vezes o que interessa é o estilo do pintor. "No fundo, o que importa é o olhar do artista", comenta o pesquisador, ressaltando que esse olhar acadêmico sobre o País acaba influenciando a forma como os brasileiros viam a si próprios. "Ironicamente, o Brasil passou a se ver pelos olhos dos artistas estrangeiros", diz. Romantismo - Isso não quer dizer que o novo mundo não despertava enorme interesse. Não é à toa que o Rio de Janeiro foi a cidade mais pintada no século passado depois de Paris (são vários os exemplos desse olhar presentes na exposição e no livro). "A partir dessa documentação iconográfica você vai criando essa mística do Brasil; muitos deles já vinham em busca da visão do paraíso".
Convém mencionar que essa atitude corresponde ao início do estudo de campo, do trabalho feito ao ar livre e posteriormente melhorado em ateliê (representado na coleção por Henri Nicolas Vinet). "Depois, essas experiências explodem no impressionismo, que é só pintura ao ar livre e que abandona e condena a pintura de ateliê", situa o pesquisador. Não faltam exemplos dessa atitude romântica, que vai resgatar a idéia de natural, de fruto da terra. Aliás, a natureza-morta está pouco representada na mostra, mas há duas telas de Agostinho José da Motta que merecem ser mencionadas. A mesma exaltação ocorre nas pinturas históricas e nos retratos da corte. No fundo, este mundo novo se torna, nas palavras de Martins, "o grande depositário do imaginário romântico europeu". "Chegando aqui, eles encontraram uma situação completamente atípica em termos de paisagem, de clima, de situação social; isso exerceu uma grande atração não só para as missões oficiais como para os artistas aventureiros", resume.