São Paulo, 09 (AE) - Após percorrer vários países da América Latina, a exposição "Di Cavalcanti - A Invenção do Brasil Modernista" finalmente chega ao Brasil. A mostra, organizada pelo Museu de Arte Contemporânea (MAC), será inaugurada amanhã (10) à noite na Galeria do Sesi, em São Paulo, e não pretende ser uma retrospectiva do pintor. Mas cumpre com eficácia o papel de revelar sua trajetória artística, principalmente no que se refere à importância do desenho em sua construção plástica. Foi como desenhista que ele começou sua carreira, em 1914, e é o traço que dá coerência e estrutura a toda a sua obra posterior.
A exposição é basicamente composta por desenhos. São cem aquarelas, pastéis, guaches, grafites, nanquins e outros trabalhos sobre papel, selecionados pela curadora da exposição, Helouise Costa, entre as mais de 500 obras de Di que pertencem à coleção do MAC e que dão a ele o título de artista mais bem representado na coleção do museu. Aliás, foi o próprio Di quem doou esses trabalhos ao MAM, em 1962 - um ano antes de Ciccillo Matarazzo transferir toda a coleção do Museu de Arte Moderna para o MAC.
Segundo informou a curadora, durante uma entrevista coletiva, o próprio Di doou um conjunto de trabalhos que mostra a essencialidade do desenho, selecionando até mesmo uma série de esboços inacabados. Além de tentar escolher as obras menos conhecidas, Helouise procurou evidenciar a diversidade temática e técnica do artista e dividiu a exposição em quatro módulos. O abandono de uma organização por critérios cronológicos deixou ainda mais evidente o fato de que a produção de Di pouco variou ao longo de décadas de produção. A cara do Brasil - No primeiro módulo da exposição estão aquelas obras do universo por excelência de "Di Cavalcanti: Cenas e Personagens Brasileiros". É esse aspecto de sua obra, aliás, que justifica parcialmente a inclusão da exposição no calendário de comemorações dos 500 Anos da USP - instituição à qual pertence o MAC. Afinal, Di Cavalcanti não foi apenas um dos maiores artistas brasileiros deste século. Ele também cunhou uma imagem do País que vigora até hoje.
Como explica o diretor do MAC, José Teixeira Coelho, "para Di Cavalcanti o Brasil modernista era uma questão de traço, de forma, mas também de conteúdo". Ele colocou o povo - e o negro, principalmente a mulata de formas fartas - nas telas. As mulheres (que como lembrou Heloise poderiam estar incluídas no primeiro módulo) ganharam um núcleo à parte.
Uma das grandes surpresas da mostra são os desenhos do terceiro segmento, no qual estão reunidos os trabalhos feitos por Di para livros, cenografias e até para a decoração de uma gafieira no Rio. Entre eles há uma série de experimentos gráficos do artista e pode-se notar a influência de mestres que ele conheceu em sua estada em Paris - para onde se mudou em 1923
um ano após sacudir São Paulo com a turma da Semana de Arte Moderna.
Di Cavalcanti era confessadamente contra a abstração. Mas isso não o impediu de fazer experiências - ainda figurativas - usando elementos apreendidos das obras de mestres como Picasso e Matisse, por exemplo. E no quarto núcleo estão as charges, caricaturas e os desenhos, em que o pintor deixa evidente uma fina ironia e explicita seu posicionamento político, criticando com acidez o nazismo, a guerra e também o capitalismo. Também foi incluída na mostra de São Paulo uma série de dez pinturas, com destaque para "Os Pescadores" e "O Beijo", tela pintada em 1923 - uma das mais antigas da exposição. MAC na Paulista - Essa mostra é a primeira de uma série de eventos realizados pelo MAC na Galeria do Sesi ao longo do ano, levando o acervo da instituição para um local de maior visibilidade e permitindo a realização de uma ampla reforma de sua sede na USP sem que para isso o acervo fosse mantido longe do público.
A reforma, iniciada mês passado, deve estar concluída em setembro e dotará o museu de condições técnicas e museológicas mais condizentes com o maior acervo de arte moderna e contemporânea da América Latina. Serviço - "Di Cavalcanti - A Invenção do Brasil Modernista". De terça a domingo, das 9 às 19 horas. Centro Cultural Fiesp. Avenida Paulista, 1.313, tel. 818-3538. Até 11/6.

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